Um mês depois de incêndio em ocupação, 20 famílias ainda estão sem aluguel social em Santa Cruz

Gilberto Porcidonio
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Moradora de Santa Cruz, na Zona Oeste, a estudante Joice de Paula, de 36 anos, faz o curso de Técnico em Manutenção e Suporte em Informática no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), em São Cristóvão, na Zona Norte. Há um mês, a sua vida mudou radicalmente: o incêndio acontecido na comunidade Unidos Venceremos, na comunidade Jesuítas, levou embora, além do barraco onde vivia há três anos com um filho de 16 anos e outra de 9, o seu tablet que era utilizado para acompanhar as aulas. No momento, Joice está morando, junto dos filhos, na casa de uma amiga na própria comunidade Jesuítas, e está dependendo da solidariedade de amigos e colegas do seu curso. A situação de Joice é parecida com a de outras 50 famílias que aguardam o aluguel social prometido pela Prefeitura desde que houve o incêndio.

— Eu fui uma das famílias que ainda não recebeu o dinheiro. A nossa vida está muito bagunçada e, inclusive, tem um amigo nosso que está morando na rua e que está sendo ajudado pela gente. Vamos ver se até sexta- feira sai alguma coisa, pois ninguém falou nada até agora — disse Joice.

Até a semana passada, as 50 pessoas que estavam abrigadas no Centro Esportivo Miécimo da Silva, em Campo Grande, onde recebiam água, máscaras, álcool gel e alimentos, resolveram sair do local por conta de uma obra que estava acontecendo no espaço.

— Nós ficamos com medo de estar lá e alguma coisa,como um tijolo, acabar caindo em cima das crianças. A gente só quis sair de lá por conta disso, mas não é porque a gente morava em um barraco que a gente podia deixar morrer os nossos sonhos. Quero terminar os meus estudos — explicou Joice.

A Secretaria de Assistência Social da Prefeitura informou que, para dar continuidade ao recebimento do benefício, essas famílias devem regularizar sua situação civil, por meio da obtenção de certidão de nascimento e registro de identidade que foram perdidos no incêndio. A secretaria está auxiliando as famílias a obter essa documentação junto a Fórum, Cartório e Detran da região, inclusive com a realização de transporte para esses locais. Até o momento, 135 certidões de nascimento de adultos e crianças estão prontas e 43 pessoas já foram encaminhadas ao Detran para tirar segunda via da Carteira de Identidade.

Sobre o despejo do galpão onde escolheram ficar depois do incêndio, a secretaria informou que não foi comunicada formalmente ainda sobre o caso. Os desalojados foram transportados pela Prefeitura para o abrigo temporário no centro esportivo ainda na noite do incêndio, pois as famílias não aceitaram ser transferidas para os abrigos municipais e informaram que se hospedariam em casas de parentes até começar a receber o aluguel social, e deixaram o abrigo temporário na própria sexta-feira, 15. No entanto, sem comunicar às autoridades municipais, elas decidiram ir para o galpão próximo à ocupação. Caso elas desejem ser atendidas pela Assistência Social, deverão aceitar abrigo nos equipamentos municipais disponíveis para esses casos.

As 146 famílias afetadas pelo incêndio receberam o pagamento do primeiro cheque do aluguel social no dia 20 de janeiro, seis dias depois do ocorrido, na noite de 14 de janeiro. As famílias foram cadastradas pela Secretaria Municipal de Assistência Social e seu cadastro checado pela Secretaria Municipal de Habitação, que cruzou os dados com seu cadastro de 2020 das famílias pertencentes à ocupação. De 175 fichas encaminhadas pela Assistência Social, 146 foram aprovadas pela Habitação, que é a responsável pelo pagamento do benefício, determinado por lei em R$ 400.

A ocupação Unidos Venceremos existia há 4 anos e meio e reunia 200 famílias com renda abaixo da linha de pobreza. Antes de ter este nome, o local levava o nome de Joana D’Arc. Segundo a representante dos moradores, a dona de casa Rose Rocha, o incêndio teria começado com um curto-circuito em um ventilador de teto de um dos barracos. Ela explica que muitos não concordam com a forma que a prefeitura ofereceu de fazer a triagem das pessoas.

Em julho do ano passado, os moradores chegaram a fazer uma manifestação na Avenida Brasil para reivindicar moradias dignas. Há 2 anos, o então prefeito Marcelo Crivella havia prometido aos moradores que levaria todos para o aluguel social.