'Um maníaco': advogadas criminais dizem ter sido assediadas por policial penal no CE; homem será ouvido nesta quinta

'Um maníaco'. É dessa forma que cinco advogadas criminais do Ceará definem o policial penal Caio Façanho da Paz, de 30 anos. As profissionais afirmam que, há aproximadamente um ano, são perseguidas por ele, com dezenas de ligações importunas e mensagens de assédio sexual, enviadas através de números anônimos. São áudios, textos e fotos obscenos, ameaças e até pedidos para que elas se prostituam para ele. Sua identidade só foi descoberta porque uma das mulheres que diz ter sido vítima, cansada das investidas, fingiu interesse para que ele ligasse a câmera numa vídeo-chamada. Ele, então, a adicionou em um perfil fake no Instagram, onde se identificava como "Concurseiro Disciplinado" – usando a foto de um agente da Polícia Rodoviária Federal (PRF). Provocado, fez insinuações de cunho sexual, enviou imagem que seria do próprio pênis e, por fim, acabou revelando o rosto.

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Ela, então, descobriu que o homem era Caio: lotado na Casa de Privação Provisória de Liberdade Professor Clodoaldo Pinto (CPPL II), na cidade de Itaitinga, local onde todas elas sempre frequentaram a trabalho para defender seus clientes. Quando a informação se espalhou, todas que passaram por algo semelhante disseram que não o conheciam. Na penitenciária, ele tem acesso, através dos cadastros, a informações pessoais de contato e até de residência delas. Em um dos casos, uma das vítimas afirma que, para tentar coagi-la, ele mostrou saber onde ela morava. Os nomes das denunciantes serão preservados.

– O caso chegou até mim quando uma das vítimas, que é uma colega de profissão, relatou em um grupo de advogadas que temos, neste fim de semana, que havia conseguido identificar o autor dos assédios. Ele mandou foto dele e perguntou se alguém conhecia esse policial penal. Quando vi as mensagens, com os relatos atormentadores dela, eu liguei e imediatamente disse que precisávamos ir à Delegacia de Assuntos Internos e, caso não fosse resolvido, à Delegacia da Mulher – conta a advogada Raphaele Farrapo, que tem representado as vítimas.

Suspeito não se manifesta sobre denúncias

Um procedimento já foi instaurado pela Controladoria Geral de Disciplina, órgão que apura servidores da segurança, e a expectativa é de que o suspeito seja ouvido na manhã desta quinta-feira em sede policial. Ele não foi indiciado. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) ainda não se manifestou sobre o caso, tampouco informou se o agente foi afastado de suas funções.

Caio também foi procurado pela reportagem, mas, até a publicação da matéria, ainda não havia se pronunciado sobre as acusações feitas pelas advogadas.

Raphaele Farrapo diz acreditar que mais denúncias devem aparecer após a repercussão do caso. Ela detalha como acredita que ele escolhia as supostas vítimas.

– Ele tem um padrão de vítimas. São todas advogadas morenas, bonitas e novas. E possui um modus operandi. A mulher chega na unidade prisional, ele vê, mas não aborda. Depois, se utiliza do sistema de agendamento dos advogados da SAP, onde tem todos os nossos documentos e endereço, consegue o telefone e, quando a advogada sai do atendimento ao seu cliente, ele já liga, de forma inibida, perguntando quanto ela cobraria para transar com ele, o que ele chama de "atendimento". Ele ofereceu entre R$ 1 mil e R$ 2 mil às vítimas.

Trinta ligações

A reportagem teve acesso a registros feitos pelas vítimas. Segundo elas, o homem, desde os primeiros contatos, já as abordava chamando-as de "gostosas" e dizendo, com linguagem grosseira e obscena, que tinha interesse em praticar sexo anal com elas. Dizia por vezes ainda que estava se masturbando durante o contato.

– De início eu esculhambava, pedia para me deixar em paz. No entanto, ele insistia, chegando a ligar mais de 30 vezes. Essa situação não parou. Pelo contrário, foi se agravando. Horas ele se identificava como agente da CPPL 4 , da CPPL 3, dizendo se chamar Marcelo. Há alguns meses, busquei a direção da CPPL 4 e relatei o que estava acontecendo e obtive todo apoio. Inclusive fui orientada a gravar as ligações para que pudessem identificar o maníaco – conta a suposta vítima. – Por um período ele parou, mas no sábado tornou a ligar. Então, entrei em contato com o Secretário de Administração Penitenciária (Mauro Albuquerque) informando o caso e agi por conta própria para tentar identificar o assediador: fingi que queria (prosseguir com contato) e pedi a ele para fazer uma chamada de vídeo. Consegui, então, a foto dele e buscamos os órgãos competentes para punir o agressor. Ainda estou muito abalada pois as palavras de assédio são de extremo grau de ofensa, imoralidades e ainda pelo visível grau de descaso que o agente apresenta em permanecer as ligações até mesmo enquanto estava na presença da delegada.

'Comecei a entrar no jogo dele': a tática para desmascará-lo

A reportagem teve acesso a algumas das ligações, onde a advogada finge se interessar em Caio para desmascará-lo, que foram gravadas. "Você é casada? seu marido está aí perto? Ele te come gostoso?", pergunta ele. Ela finge estar se interessando pelo assunto e ele continua: "Eu tenho uma tara quando tu vai de saia. A gente vai fazer anal ou não dá?".

– Eu comecei a gravar enquanto ele falava. Gravei as imoralidades dele. Comecei a entrar no jogo dele, disse que queria. Ele disse que queria fazer programa, que queria pagar para transar comigo. Eu disse, então, que queria fazer uma chamada de vídeo. Ele me ligou e eu fiz várias prints do rosto dele – relatou a mulher.

Em boletim de ocorrência, feito na última terça-feira, ela detalhou à polícia sobre os assédios.

"O agente, além de me assediar, fala imoralidades que vai fazer comigo, sem se identificar, agindo como um maníaco e usando termos de baixo calão, que irá me comer, que quer enfiar seu pênis em mim, além de outras imoralidades. O mesmo sempre liga de número restrito, onde eu sempre pedia respeito e desligava. No entanto, os assédios permaneceram durante todo esse período, de mais de um ano", denunciou.

Pedidos para fazer programa

Outra denunciante também conta ter sido abordada pelo suspeito logo após ter se cadastrado no presídio. A reportagem também teve acesso ao relato.

– Comigo foi a mesma coisa. Eu tive que trocar de número, porque já faz mais de um ano também... foi logo que fiz meu cadastro na penitenciária. Posteriormente, comecei a receber ligações de número privado., Um dia eu estava no carro com o meu marido, ele me ligou e perguntou se eu queria R$ 1 mil pra fazer um programa com ele. Me assustei e perguntei quem estava falando. E ele disse: "Você pode falar? porque eu quero pagar para você fazer um programa comigo, porque eu sou louco por você. Depois, começou a piorar. Na segunda vez, ele já falou o meu endereço. Não sei nem o que dizer.

X., advogada ouvida pelo GLOBO, conta que foi a primeira a registrar denúncia pela importunação, mas nem sabia, quando foi à delegacia, quem era o responsável pelas ligações. Ela conta que começou a ligar as peças do quebra-cabeça após ouvir os relatos das outras advogadas. O modus operandi do suspeito era idêntico.

– Eu não sabia que era ele (Caio), mas o meu relato é o mesmo das outras advogadas, então tudo indica que seja o mesmo agente. No começo, cheguei a desconfiar de um colega da profissão que pegou meu número, então eu não sabia quem era o culpado e não queria apontar o dedo para ninguém. Até eu saber agora que todas essas advogadas relatam exatamente a mesma coisa que aconteceu comigo. Eu não tive contato com ele, não cheguei a fazer vídeo-chamada com ele, como a outra advogada, eu apenas recebi essa ligação e logo fiz o boletim de ocorrência, pedindo quebra de sigilo, porque queria saber quem estava ligando – conta X. – Eu jamais imaginei que isso acontecia com outras advogadas quando fiz meu B.O. Quando algo assim acontece, você fica até com vergonha de fazer qualquer procedimento, vergonha, mesmo, de falar na delegacia que recebeu determinada ligação, de determinada forma. Meu procedimento no início era totalmente sigiloso.

Em boletim de ocorrência, ela narra que, no dia 29 de outubro, recebeu duas chamadas de um número desconhecido, e atendeu na segunda tentativa. "A pessoa deu boa tarde e perguntou se eu estava em atendimento. Ao acreditar que tratava-se de um cliente, pedi para enviar uma mensagem pelo WhatsApp. No instante a pessoa disse que não poderia e disse que queria pagar a mais pelo meu atendimento. Sem entender nada, eu apenas desliguei a ligação. A pessoa ligou novamente dizendo que, ao me ver na Unidade Penitenciária em atendimento, ficou interessado e queria pagar R$ 2 mil para sair comigo. Eu disse que não estava entendendo, então ele falou novamente, e eu rebati dizendo que ele estava confundindo a minha profissão. Que eu era advogada, não garota de programa, e desliguei", relatou.