Um mergulho na recém-inaugurada Montblanc Haus, que reverencia não apenas suas canetas, mas o poder da escrita

Da atriz americana Maggie Gyllenhaal ao ator e hispano-alemão Daniel Brühl, a lista de convidados para a abertura da Montblanc Haus, em Hamburgo, no mês passado, evidencia uma das características mais marcantes da casa alemã: sua associação a personalidades que dialogam com o mote de seu novo espaço cultural: a escrita. Em tempo: nesse ano, Maggie foi indicada ao Oscar de melhor roteiro por sua adaptação de “A filha perdida”, romance de uma das mais prestigiosas autoras contemporâneas, a italiana Elena Ferrante.

A outra característica é a excelência de seus instrumentos de escrita, produzidos logo ali atrás do novo prédio, em sua manufatura, onde também fica sua sede. A proximidade é proposital: projeto em gestação há mais de cinco anos, a Montblanc Haus tem um caráter quase museológico, de mergulho nos arquivos da marca, que em 2022 completou 116 anos. Mas também de constante valorização da letra viva: a nova casa é uma ode à capacidade que a escrita tem de inspirar, seja em nosso dia a dia superconectado, ou por meio da literatura, da música e das artes plásticas, presentes ali em intervenções dos franceses Marianne Guély e Wendy Andreu.

No projeto do arquiteto espanhol Nieto Sobejano, a fachada lembra embalagens históricas, com texturas que aludem ao Mont Blanc, o maciço dos alpes que empresta seu nome à marca. Já as paredes de seu interior remetem a folhas de papel em branco.

A Montblanc Haus abriga uma exposição permanente, com mais de 400 de suas canetas, de peças históricas a coleções recentes, os bastidores de sua produção artesanal, além de experiências imersivas, que trazem um pouco do mundo digital a este universo analógico. Há também uma curiosa seleção de autógrafos, de que fazem parte algumas assinaturas reunidas junto aos homenageados da Writer’s Editions, uma série de canetas criada pela maison em 1992. “Fomos atrás desses autógrafos originais e nos últimos dois anos passamos a reviver esta ideia e estender nossa seleção, entrando em contato com colecionadores”, conta Alexa Schilz, diretora da Montblanc Haus. Entre as assinaturas em exibição, há recentes, como a do cineasta Spike Lee, que escreve seus roteiros à mão, e uma raridade do século XVIII: um autógrafo do filósofo francês Voltaire.

O espaço irá também acolher mostras temporárias, sempre duas ao ano. A atual é dedicada aos 30 Anos da Patrono das Artes, uma coleção de canetas que já prestou tributos a Alexander Humboldt, Henry E. Steinway e, mais recententemente, à Rainha Victoria e ao Príncipe Albert.

Alexa também destaca como a força da publicidade — vista em cartazes e anúncios em turco ou até mesmo islandês — e de suas ousadas ações de marketing no passado foram uma fonte valiosa. Uma das preciosidades achadas nos arquivos foi um cartão-postal escrito por Greta Gross, ex-diretora de marketing, de dentro do dirigível Zeppelin, no início do século XX, com uma caneta tinteiro da marca. “Primeiramente, só haviam visto a parte da frente do cartão, até que a pesquisa nos levou à parte de trás, completando a curiosa história que havia por trás dele”, conta.

O espaço foi concebido para oferecer diferentes tipos de visitação. O púbico em geral pode fazer um tour, eventualmente com um guia, em grupo, ou com um áudio-guia. Segundo Alexa, clientes recorrentes podem fazer incursões nos arquivos, “com histórias que ainda permanecem escondidas por ali”. “E temos a visita à manufatura, algo que as pessoas realmente adoram fazer, pois podem acompanhar de perto a criação dos instrumentos de escrita. Há ainda a possibilidade de trazer os colecionadores para ver de perto alguns produtos especiais a que eles não teriam acesso, mesmo nas butiques Montblanc próximas a eles”, conta a diretora.

A inauguração da Montblanc Haus coincide com um boom dos instrumentos de escrita mundo afora, com a alta das vendas durante a pandemia, em que a digitalização exacerbada de nossas rotinas acabou dando um significado diferente à escrita, de acordo com Alessandra Elia, diretora do núcleo Cultura da Escrita na Montblanc. “Nosso dia a dia é dominado por mails, SMS etc. Se você quer escrever à mão um recado pessoal para alguém, um bilhete de agradecimento ou um cartão comemorativo, você dedica um tempo a isso, com um sentimento e uma intimidade especiais que atravessam esse ato. E isso se refletiu num crescimento nas vendas de canetas tinteiros que superou patamares históricos”, conta Alessandra.

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