Um mestre do cinema no Brasil

Firmino Holanda e Petrus Cariry investem, em “A jangada de Welles”, em elementos do documentário tradicional, como sucessão de entrevistas e contextualização histórica. Mas a estrutura convencional não atravessa inteiramente o filme, a julgar pelas referências cinematográficas entrelaçadas, de forma instigante, na montagem, a cargo dos próprios diretores.

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O público acompanha o resgate de um acontecimento importante: a vinda de Orson Welles — que havia acabado de lançar sua obra-prima “Cidadão Kane” (1941) — ao Brasil, em 1942, para conduzir um filme de encomenda sobre o carnaval do Rio de Janeiro e os jangadeiros que, no ano anterior, viajaram de Fortaleza até o Rio de Janeiro com o objetivo de reivindicar direitos trabalhistas ao presidente Getúlio Vargas.

Ligado à política de boa vizinhança dos Estados Unidos, o projeto teve desdobramentos dramáticos. Manuel “Jacaré”, líder dos jangadeiros, morreu afogado durante as filmagens. O enfoque de Welles e as imagens registradas não agradaram ao estúdio RKO, que passava por uma crise interna, e o projeto foi cancelado. Munido de ímpeto desbravador e particularmente sensibilizado com a história dos jangadeiros, Welles insistiu na reconstituição, mas não conseguiu concluir a empreitada. O episódio dos jangadeiros só foi montado em 1993, resultando no documentário “Tudo é verdade”, de Richard Wilson, Myron Meisel e Bill Krohn. Uma via-crúcis que evidencia a relação muitas vezes tempestuosa entre o artista criador e o controle exercido pela grande indústria.

Se Holanda e Cariry começam se aproximando de um formato padronizado de documentário (mas com bons depoimentos, como os de José Castro “Guaiúba”, filho de “Jacaré”, e do pesquisador Cristiano Câmara), ao longo da projeção essa impressão se desfaz, pelo menos em parte. Há algumas sequências em que os diretores evitam que as imagens se limitem a ilustrar de modo didático os fatos apresentados. São momentos marcados por inserções de cenas ou áudios de filmes concebidos em períodos diversos da história do cinema, como as produções do expressionismo alemão e outras de autoria de Welles.

Não se trata de um procedimento aleatório. Ao surpreenderem com a inclusão de trechos de filmes sem conexão explícita com o assunto abordado, os diretores estimulam cada espectador a traçar articulações entre som e imagem. O documentário também reúne cenas de mais um filme — este centrado na saga de Welles no Brasil: “Nem tudo é verdade” (1986), de Rogério Sganzerla.

“A jangada de Welles” proporciona um passeio pelo tempo que ganha ainda mais destaque nos minutos finais, voltados para os crescentes obstáculos enfrentados pelos jangadeiros, que continuaram lutando por melhores condições de trabalho e foram afastados do lugar de origem devido a interesses econômico

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