Um pai dedicado, uma mulher sempre disposta a ajudar e uma educadora na comunidade: conheça algumas das vítimas do Alemão

Nas primeiras horas de quinta-feira, dia 21, os moradores do Complexo do Alemão acordaram ao som de tiros, desdobramento de uma operação conjunta entre as polícias Militar e Civil. Os confrontos se estenderam ao longo do dia e o número de mortos chegou a 18. Com o policiamento reforçado no dia seguinte à ação, mais uma nova vítima fatal. Entre essas histórias interrompidas, um policial militar que chegava para trabalhar, uma mulher que deixa a comunidade após visitar as filhas e uma moradora que caminhava numa das ruas. Conheça essas três vítimas da operação.

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Mais de 400 policiais civis e militares participaram da ação na quinta-feira, que empregou ainda quatro aeronaves e dez veículos blindados. As tropas de elite das duas corporações — Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) e Batalhão de Operações Especiais (Bope), respectivamente — comandaram as varreduras. Já a Polícia Rodoviária Federal (PRF) participou do cerco ao conjunto de favelas, patrulhando acessos e ruas próximas. Os principais alvos eram quadrilhas especializadas em roubos de veículos, de carga e de combustível na capital e na Baixada Fluminense, além de assaltos a agências bancárias no interior fluminense.

O policial Bruno de Paula Costa chegava para trabalhar quando foi morto

“Apaixonado pela profissão e um paizão”. Foram essas as descrições de colegas sobre o cabo Bruno de Paula Costa, de 38 anos, morto no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, após suspeitos atacarem a base da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Nova Brasília, durante a operação em conjunto entra as polícias Civil e Militar, na comunidade.

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Na corporação desde 2014, ele fazia de tudo para cuidar dos dois filhos autistas. Casado com Lídia Costa, o militar chegou a ser paraquedista e cabo no Exército antes de ingressar nas fileiras da PM fluminense. A mulher chegou a pedir que ele não ingressasse na corporação. Em vão. Sempre cauteloso e preocupado com os riscos, ele tomava cuidado para não ser reconhecido como policial militar, segundo Lídia.

Bruno chegava para mais um dia de plantão na UPP onde era lotado, quando a base em que estava foi atacada por traficantes em retaliação à operação policial. Ele foi atingido por um tiro no pescoço e outro nas costas. Socorrido por colegas de farda ao Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, o militar já chegou morto à unidade de saúde.

Com a morte de Bruno, sobe para 32 o número de agentes de segurança que perderam a vida em ações violentas no Rio. O Portal dos Procurados, um programa do Disque Denúncia, divulgou um cartaz pedindo informações que auxiliem sobre a morte do policial. O órgão oferece R$ 5 mil para quem der pistas de quem o matou. O anonimato é garantido.

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O governador Cláudio Castro (PL) usou as redes sociais para lamentar o caso: "Nossas forças de segurança foram covardemente atacadas hoje (quinta-feira, dia 21) cedo durante uma grande operação no Complexo do Alemão para prender criminosos. Um policial foi morto e outro, baleado. Lamento profundamente a morte do nosso agente e me solidarizo com a família", escreveu.

Letícia Marinho Sales morreu após visitar as filhas

Após dormir na casa do namorado, no Complexo do Alemão, a desempregada Letícia Marinho Sales, de 50 anos, deixava a comunidade para voltavar para casa, na comunidade Beira-Rio, no Recreio dos Bandeirantes, local que fica a 30 quilômetros. Ela foi até a Vila Cruzeiro no dia anterior à operação para ajudar uma amiga pastora e visitar as filhas que moram na região. Ela era conhecida pelos parentes como “super heroína e que estava sempre para ajudar as pessoas”. Na quinta-feira, quando ela e o namorado, Denilson Glória, passavam pela Estrada do Itararé, uma das principais vias que corta a favela, o carro em que eles estavam foi atacado. O homem acusa policiais militares pelo ataque.

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Letícia foi atingida no peito. Mãe de três filhas, a mulher que havia acabado de fazer um curso de vigilância para voltar ao mercado de trabalho, chegou a ser levada para a UPA do Alemão. Entretanto, já chegou morta.

Denilson contou que saía da casa da tia, onde tomou café da manhã junto com a namorada, e estava a caminho do trabalho quando Letícia foi atingida. O tiro acertou o retrovisor do carro e e em seguida bateu no peito dela.

De acordo com o porta-voz da PM, o tenente-coronel Ivan Blaz, Letícia era amiga pessoal de sua mãe. A Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) abriu um inquérito para apurar de onde partiu o tiro que vitimou Letícia.

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Solange Mendes da Silva foi a 19ª pessoa a morrer

Mais de 24 horas após o confronto que deixou 18 mortos no Complexo do Alemão, a comerciante Solange Mendes da Silva, de 49 anos, foi morta com um tiro ao ser atingida na cabeça. Segundo a PM, ela foi vítima de uma bala perdida quando bandidos teriam atacado PMs da UPP Nova Brasília, na Praça da Vivi.

A mulher foi ferida em uma das ruas da região conhecida como Caixa D’água. No momento em que ela foi baleada, PMs tentavam retirar barricadas colocadas por criminosos. Houve um ataque e a comerciante foi alvejada com um único tiro de fuzil na cabeça. Ela caiu nos pés de um militar. Segundo moradores, Solange estaria a caminho de um comércio para comprar ingredientes para preparar a refeição do dia na pensão da qual era dona.

Levada para o Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, Solange já chegou morta. Ela era casada e deixa dois filhos. Uma das mais antigas moradoras da região, ela também era educadora e ensinava moradores a ler e a escrever.

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