Um passeio pela Casa Arlette, coletivo de arte na Gávea, criado pelo artista plástico René Machado

Quando dona Arlette construiu, ao lado do marido, a casa em que morou até os seus 99 anos, não poderia imaginar que, tempos depois, o imóvel da década de 1970 viraria um espaço de arte. Muito menos que ganharia o seu nome. A Casa Arlette é um projeto do artista plástico René Machado iniciado durante a pandemia. “Enquanto todo mundo fechava, resolvi ir no contra fluxo”, conta ele sobre o projeto que começou em agosto de 2020 e reúne um time cheio de sintonia, formado ainda pelas artistas Ana Quintela, Daniela Granja, Talitha Rossi e Cathrine Crawfurd e o fotógrafo Jorge Bispo.

René encontrou a casa, localizada no Alto Gávea, com três andares, pátios, belas escadas, paredes azulejadas e jardim, viu que seria ali seu novo ateliê. Ou melhor, dele e de mais alguns amigos. “Esse é o meu terceiro espaço de arte. Já tive um na Bhering de 2010 até 2016, o Sara 17. Depois, um aqui na Gávea também, o Marquês 456. Em todos, o foco principal sempre foi reunir vocações multidisciplinares para incentivar as trocas”, explica. “Aqui, reformei tudo. Depois, comentei com alguns amigos e fui formando o grupo. É fundamental ser legal para estar aqui. A casa, além de acomodar os espaços de criação individuais, é um coletivo de harmonia. Aprendi a importância disso ao longo da vida.”

Com esse clima, eles se reúnem para cafés à tarde, descem para almoçar juntos no Guimas, tomam vinho na varanda e curtem a noite no Bar Galvão, um dos espaços que foi transformado em pub decorado com garimpos e obras de arte. “É uma homenagem ao meu amigo Eduardo Galvão, que morreu em 2020 vítima de Covid-19. Adorávamos ver os jogos do Flamengo, íamos juntos ao Maracanã. Virou o lugar das festas. Mais tarde tem”, conta o anfitrião ao começar o giro pela casa em plena sexta-feira.

Logo na entrada da Casa Arlette, o visitante se depara com uma enorme pintura da bandeira LGBTQIA+ com a frase “Amor não tem gênero”. Ao lado, a bandeira do Brasil com buraco no meio, de Raul Mourão, balança no ritmo do vento. A cada novo passo, vê-se trabalhos de Vergara, Bechara, Marcos Chaves... “Algumas obras de artistas grandes dão a chancela”, comenta René, que ainda tem no acervo peças de Rafael Alonso, Vicente de Mello, Allan Sieber, Ana Costa e Silva e outros espalhados pelos ambientes.

O primeiro espaço é o do fotógrafo Jorge Bispo, logo na entrada. É ali que ele, além de retratos comerciais, vem pensando suas obras autorais. “Minha formação é em Artes Plásticas. Tenho voltado a fazer meus retratos com intervenções”, conta Bispo.

No primeiro andar, fica o ateliê de René, que está com uma série de quadros em grandes dimensões com pinceladas mais azuis. No espaço também rola o sarau Sons e Silêncio, evento criado pelo curador e diretor artístico do Rock in Rio Zé Ricardo. “É um convite à escuta. Além das artes plásticas que já ocupam a casa, o René queria incluir a música. A ideia é ouvir da mesma maneira que se assiste a um filme ou uma peça. Sem falar e mergulhando na experiência”, conta Zé. Já passaram por lá o grupo Bala Desejo, as cantoras Júlia Linhares, Agnes Nunes e Almério. “No meio da perseguição à cultura que estamos passando, encontrar um espaço dedicado à arte, em um coletivo tão especial, é potente demais”, finaliza.

No segundo andar, ficam as mulheres, que, aliás, são maioria por ali. Com estéticas bem diferentes uma das outras, Ana Quintella, Talitha Rossi, Daniela Granja e Cathrine Crawfurd criam em seus espaços, mas se visitam, se ajudam, trocam ideias e ajudam a decorar os respectivos ateliês. “Às vezes um cliente ou amigo vem visitar uma de nós e acaba se encantando pela arte da outra. Essa troca é muito boa e deixa a nossa rotina aqui leve e criativa”, comenta Talitha.

Uma casa com muitas potências.

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