Um terceiro filho? Na China, 'não, obrigada'

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Falta de dinheiro, muito trabalho ou simplesmente preferência pela vida em casal faz com que a maioria dos chineses tenha pouca vontade de ter três filhos, embora o governo tenha autorizado isso para combater o envelhecimento da população.

A partir do final dos anos 1970, a política de limitação de natalidade impôs por décadas o filho único aos casais, com exceções para as minorias étnicas e a população rural.

Mas, em face do envelhecimento da população, as restrições foram suspensas. E desde segunda-feira (31) o Partido Comunista autoriza três filhos por casal, poucas semanas depois de ter recebido os resultados preocupantes do último censo decenal.

Em meio a trens elétricos e ursinhos de pelúcia, duas crianças vagueiam pelas prateleiras de uma loja de brinquedos em Pequim, enquanto os pais discutem as novas medidas do governo, muitas vezes recebidas com piadas nas redes sociais.

"Não temos tanto dinheiro para criar os filhos e não temos muito espaço em casa. Portanto, não há razão para ter um terceiro filho", explica o jovem pai Yang Shengyi.

Yang e sua esposa já são uma exceção no país do filho único, em que o segundo filho para todos os casais só foi autorizado em 2016, sem melhorar a taxa de natalidade.

"Quando nosso segundo filho chegou, de repente tudo teve que ser dividido por dois. Onde podíamos dar 100%, tivemos que reduzir para 50%", comenta esse pai de 29 anos.

- "996" vs os "pequenos imperadores" -

Para muitos de seus compatriotas, a perspectiva de um único filho, e até de um casamento, é impensável: a vida moderna impõe longas horas de trabalho ou de transporte, além de altos custos de moradia e para a criação dos filhos.

Esta é uma mudança radical em um país onda as crianças tradicionalmente tinham que garantir a linhagem de seus ancestrais.

Mas os jovens de hoje "riem da ideia de passar o sobrenome. Para eles, o que conta é a qualidade de vida", diz Yan Jiaqi, estudante de 22 anos.

"Muitas mulheres do meu meio não gostam nem mesmo da ideia de ter um filho. Então, três, imagine...", acrescenta.

O problema é que o filho único criou o hábito de os pais se dedicarem totalmente ao seu "pequeno imperador", com fins de semana devorados por cursos de inglês ou música, com a perspectiva de sucesso desde cedo.

Há uma grande pressão sobre os pais que, sendo eles próprios filhos únicos, muitas vezes ficam sozinhos para cuidar dos pais idosos, sem poder contar com irmãos ou irmãs, tios ou tias.

"Vivemos sob forte pressão", afirma uma jovem em Xangai. "Não temos tempo para cuidar dos filhos por causa do trabalho e, se quisermos cuidar deles em tempo integral, ficamos sem emprego".

Nas empresas de tecnologia não é incomum ter que trabalhar seis dias por semana, das nove da manhã às nove da noite. Um sistema apelidado de "996" que a mídia critica, mas que alguns empresários defendem.

Como a taxa de fecundidade caiu para 1,3 filho por mulher em idade fértil, bem abaixo do limiar para renovação de gerações, o regime comunista prometeu medidas em educação e saúde para encorajar o aumento das famílias. Mas sem dar detalhes.

Se a intenção real for relançar a natalidade e garantir o financiamento das aposentadorias, o governo chinês não poderá se contentar em afrouxar as regras, afirma o demógrafo Yi Fuxian, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos.

"Ter apenas um filho ou mesmo nenhum se tornou a norma na China", aponta.

Permitir um terceiro filho "chega tarde demais" e a única esperança da China é copiar a política de sobrevivência do Japão: "Saúde e educação gratuitas e subsídios para moradia para jovens casais", alerta.

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