'Uma agência não pode sofrer pressão de quem quer que seja', diz Bolsonaro sobre Anvisa

Gustavo Maia
·5 minuto de leitura

BRASÍLIA — Ao lado do diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, em transmissão ao vivo na internet na noite desta quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro declarou que "uma agência não pode sofrer pressão de quem quer que seja". Ele também disse que ninguém vai representá-lo em contatos com a Anvisa.

As declarações ocorreram depois de Barra Torres comentar a recente flexibilização de critérios regulatórios para liberar vacinas contra a Covid-19, que foi interpretada como uma forma de facilitar a aprovação do imunizante Sputnik V, da Rússia. O chefe da Anvisa disse que a modificação não foi adotada para beneficiar nenhum laboratório em especial e justificou que trata-se de um processo dinâmico, que vai beneficiar todos os laboratórios.

O posicionamento de Bolsonaro também foi externado após ataques feitos à Anvisa pelo líder do governo na Câmara, o deputado federal Ricardo Barros (PP-PR), que, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo", afirmou que o Congresso vai "enquadrar" a agência. Segundo Barros, o órgão está "fora da casinha" e ainda não teria entendido que "precisamos de coisas urgentes, que precisamos facilitar a vida das pessoas".

"Não é possível que tenha 11 vacinas aprovadas em agências no mundo inteiro e nós só temos duas, e eles não estão nem aí com o problema”, declarou o parlamentar.

Sem citar as falas do aliado no Legislativo, Bolsonaro iniciou sua manifestação pedindo que seja feita uma análise sobre como são escolhidos os integrantes de agências reguladoras, além da Anvisa, que segundo ele hoje está "aqui na vitrine". O presidente disse querer que haja uma análise do currículo e da vida pregressa "dessas pessoas", e reclamou que muitas vezes é criticado "por algum problema de alguma agência".

Em seguida, apontou que os integrantes de agências têm mandatos definidos, e que não indicou muitos deles.

Na sequência, o presidente perguntou a Barra, que é almirante da reserva da Marinha, qual o salário bruto que ele recebe como chefe da Anvisa. Ele respondeu que ganhava em torno de R$ 14 mil por mês pela função.

— R$ 14 mil, R$ 15 mil... Então é um indicativo também, porque todo mundo tem que sobreviver, tem que trabalhar e sobreviver. No caso, você é almirante, tá na reserva, tem os seus proventos, isso aí é complementar pra você. Agora tem gente que só tem isso pra sobreviver... Então uma análise por parte de vocês [espectadores da live] de quão atrativo é ou não é uma agência dessas — comentou Bolsonaro.

Logo depois, o presidente rechaçou que se pressione as agências:

— Agora, uma agência não pode sofrer pressão de quem quer que seja. Eu não interfiro em agência nenhuma. Eu posso é conversar com o pessoal, sem problema nenhum. Assim como ninguém pode, acredito, que pressione a Anvisa.

De acordo com o raciocínio de Bolsonaro, no entanto, se o Papa Francisco for falar com Barra Torres, ele dará atenção ao interlocutor, mas isso não pode significar que, "porque recebeu Francisco, vai ser em nome dos católicos, porque isso tá acontecendo".

— Então qualquer pessoa que porventura vá na Anvisa ele não vai usar o título dele, a função dele para representar... Da minha parte, ninguém vai me representar na Anvisa. Porque lá mexe com vidas, não é uma coisa que você pode, deu errado, você conserta na frente. Vida você não conserta lá na frente. Então a Anvisa é uma agência que nós sabemos do histórico dela, tem mais que um nome a zelar, tem vidas a zelar — declarou o presidente.

Blindagem

Mais cedo, o presidente da Anvisa já havia respondido diretamente às declarações do deputado Ricardo Barros. Em entrevista à Globo News, ele declarou que as agências devem ser "blindadas de qualquer tipo de pressão".

— Lamentavelmente, não é o que vemos que está ocorrendo, principalmente no dia de hoje — disse Barra Torres, à tarde.

Na live, à noite, ele disse compreender que o Legislativo possa atuar para tornar mais breves os prazos de análise para as vacinas, mas frisou que há limites. E disse que a Anvisa é a agência que mais rapidamente aprovou o registro emergencial de imunizantes, ao lado do respectivo órgão no Reino Unido.

— Não vejo muito o que se falar em ainda mais celeridade ser dada num processo. Este compromisso já é nosso — declarou.

O diretor-presidente da Anvisa participou de toda a transmissão usando máscara, ao contrário do Bolsonaro, que evita o equipamento de proteção contra o coronavírus. Ao fim da transmissão, ele disse que confia nas vacinas aprovadas pela agência e que irá se imunizar quando chegar a sua vez na fila. Bolsonaro, que já declarou que tomará nenhuma vacina por já ter contraído o vírus, disse que vai acompanhá-lo como testemunha, ao que Barra Torres disse considerar "um início".

Ao longo da live, o presidente voltou a defender o "tratamento precoce" contra a Covid e disse que medicamentos não fazem mal, apesar de não terem sua eficácia cientificamente comprovada contra a doença. O chefe da Anvisa se calou durante a manifestação de Bolsonaro.

Morte da mãe de Luciano Hang

No início da transmissão, Bolsonaro lamentou a morte de Regina Modesti Hang, 82 anos, mãe do empresário Luciano Hang, dono da rede de lojas varejistas Havan. Ela estava internada em um hospital de São Paulo desde o fim de dezembro, após ser diagnosticada com Covid-19. Mas a causa da morte não foi citada pelo presidente.

— Uma notícia triste aqui: faleceu no dia de hoje a senhora Regina Hang, mãe do empresário Luciano Hang, das lojas Havan. Lamentamos e pedimos a Deus que conforte aí o Luciano e sua família e amigos por este momento de muita tristeza que se abateu sobre a sua família com o passamento da sua senhora, Regina Hang.