'Uma cultura que gera riqueza vai beneficiar a todos, inclusive os bolsonaristas', diz Lucélia Santos

Militante do PT desde a década de 1980, a atriz Lucélia Santos afirma que o novo governo, de Luiz Inácio Lua da Silva, deve ter como prioridade na área da cultura a modernização da estrutura destinada ao setor e a destinação de mais investimentos para a produção artística do país que, segundo ela, deve beneficiar a todos, até mesmo apoiadores do presidente Jair Bolsonaro. Escolhida para ser uma das coordenadoras da transição do presidente eleito, Lucélia recebeu o convite da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, com quem conversou por telefone.

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Em entrevista ao GLOBO, a atriz afirmou que a classe artística precisa se posicionar sobre suas expectativas para a área na nova gestão e participar ativamente da construção de políticas públicas. No governo Bolsonaro, o Ministério da Cultura foi extinto, virou uma secretaria, e programas de incentivo ao setor, como a Lei Rouanet, foram limitados.

Apesar de parte da classe artística ter se posicionado a favor de Bolsonaro durante as eleições, em especial cantores sertanejos, a atriz afirma que isso não deve contaminar a relação dos artistas com o novo governo. Lucélia destaca, no entanto, que é preciso que a classe seja propositiva.

— A classe artística, agora, vai ter que trabalhar, no sentido de demandar democraticamente o que deseja da cultura do Brasil para o (governo) Lula e para o Futuro. São demandas — afirmou ela. —Uma cultura que gera riquezas vai beneficiar a todas e todos, inclusive os bolsonaristas. Acho que não deve haver conflito. Unidade é uma palavra muito forte, acho que haverá mais entendimento, concertação e consenso do que unidade.

Lucélia afirma ainda que ser preciso explorar o potencial econômico do setor cultural, tanto no âmbito nacional como internacional. A atriz deve viajar a Brasília na próxima segunda-feira para tocar os trabalhos da transição.

— O primeiro passo é discutir o orçamento da União, ver que investimentos nós temos, onde poderão ser captados nacional e internacionalmente. A cultura brasileira tem uma parte internacional. Bem como haverá muito investimento para a Amazônia, o que é mais do que bem-vindo e natural, creio que deverá vir também investimento para a cultura brasileira. Acho que essa lacuna em consequência da pandemia deverá ser preenchida com investimentos — disse.

Sob Bolsonaro, o valor reservado para a Cultura atingiu o menor valor real desde 2005, reajustando o dinheiro no orçamento de acordo com a inflação. Em 2021, foi empenhado R$ 1,38 bilhão, número que vem em queda constante desde 2013, quando o valor reajustado foi de R$ 4,1 bilhões.

Entre os órgãos que mais sofreram com os cortes orçamentários está a Fundação Nacional de Artes (Funarte), que já chegou a empenhar R$ 237 milhões, em valores corrigidos, em 2010, mas em 2021 só empenhou R$ 93 milhões. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) chegou a empenhar R$ 495 milhões em 2018, mas o valor caiu, chegando a R$ 275 milhões em 2021.

— Você não vai fazer cinema, não vai fazer teatro, não vai fazer ópera, não vai recuperar os museus e as salas de espetáculo, não vai colocar cinemas nas universidades e nas escolas sem investimento — defende Lucélia Santos.

A coordenadora da área de cultura da transição defende ainda ser preciso modernizar o Ministério da Cultura, que deve ser recriado por Lula, e cita a importância de considerar a atuação da pasta em nichos diversos:

— Vamos fazer o diagnóstico e definir uma agenda para todos os setores: circo, ópera, teatro, musical. Há milhões de coisa: Funarte, televisões a cabo, regulamentação do streaming, direitos autorais. Há milhões de coisas a serem debatidas com a sociedade, com os setores e a classe artística. E a nível nacional, não pode ser centralizado nas grandes cidades, mas também ser feito de forma periférica — disse.

Além da atriz, o ex-ministro Juca Ferreira e o coordenador de cultura da campanha de Lula, Márcio Tavares, vão liderar os trabalhos na transição.

— A cultura durante o governo Bolsonaro foi demonizada, ele fez tudo o que ele podia fazer para destruir a cultura. Ele não fez teoricamente, ele fez praticamente. Incluindo o vai e vem nas leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc 2. A cultura foi tratada rigorosamente mal, mas não era por negligência, era por um projeto de destruição, como aconteceu no nazismo— criticou Lucélia.