Uma em cada quatro brasileiras sofreu violência durante a pandemia, revela pesquisa

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  • Durante a pandemia, a violência contra a mulher se tornou mais expressiva em casa

  • O desemprego tem afetado mais as mulheres; 7 milhões de mulheres deixaram o mercado

  • Entre as formas de violência, a mais citada foi a ofensa verbal, sofrida por 18,6% das entrevistadas

RIO. Uma em cada quatro brasileiras com mais de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência ou agressão nos últimos doze meses, durante a pandemia de Covid-19. Isso significa dizer que, cerca de 17 milhões de mulheres sofreram violência física, psicológica ou sexual ao longo do último ano. Os dados são da terceira edição da pesquisa "Visível e Invisível: a vitimização de mulheres no Brasil", feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, lançada nesta segunda-feira (7)

O percentual de mulheres que afirmaram ter sofrido violência nesta pesquisa é ligeiramente inferior aquele verificado no levantamento anterior, lançado em 2019. Porém, isso não significa que a violência contra a mulher diminuiu. Na prática, quando se observa o local onde as agressões ocorreram, mais mulheres disseram ter sofrido violência em casa — 49% nesta edição, contra 42% na anterior; e uma porcentagem menor foi agredida na rua — 19% agora, contra 29% na edição passada.

Ou seja: durante a pandemia, a violência contra a mulher se tornou mais expressiva em casa. Esse fenômeno não surpreende e não é exclusividade brasileira. Antes de o coronavírus chegar com força por aqui, alertas nesse sentido já vinham sendo feitos por organismos internacionais e entidades de defesa dos direitos das mulheres a partir do que ocorreu na China e na Europa. Porém, em países que tiveram lockdowns mais rígidos, o confinamento teve mais peso no agravamento da violência doméstica. Por aqui, o principal fator citado pelas entrevistadas foi outro. 

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Para as brasileiras, a dificuldade de garantir autonomia financeira foi o que as deixou mais vulneráveis à violência durante a pandemia. A perda de emprego ou a impossibilidade de trabalhar para garantir renda própria foi o motivo citado por 25,1% das entrevistadas que sofreram violência. Mais da metade dos entrevistados afirmaram que permaneceram mais tempo em casa durante a pandemia, e a maior convivência com o agressor foi citada por 21,8% das respondentes como agravante da violência. As dificuldades de acionar a polícia ou ir até uma delegacia da mulher apareceram em terceiro lugar, mencionadas apenas por 9,2% das entrevistadas. 

— Nos primeiros meses de pandemia, utilizamos hipóteses um pouco importadas para explicar o aumento da violência, tomando como referência o que aconteceu em países que viveram lockdowns bastante rígidos, onde as dificuldades de locomoção e o isolamento social tiveram muito impacto. Isso também afetou as brasileiras, mas somente as de uma determinada classe social mais alta, que puderam trabalhar de casa [26%, conforme a pesquisa]. No fim, para a maioria das brasileiras, a redução na renda foi o que mais pesou — explica Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 

Desde o início da pandemia, o desemprego tem afetado mais as mulheres. Só nos primeiros 15 dias de confinamento, em março de 2020, 7 milhões de mulheres deixaram o mercado de trabalho. O impacto desigual da crise econômica entre os gêneros persistiu. Segundo dados mais recentes do IBGE, no primeiro trimestre de 2021 a taxa de desocupação entre os homens era de 12,2% e, entre as mulheres, de 17,9%. 

A relação direta entre o desemprego ou a dependência econômica com a maior vulnerabilidade à violência também foi identificada entre as mais de 6 mil vítimas atendidas pelo projeto Justiceiras ao longo do último ano. Mais de 40% delas relatam estarem desempregadas, sendo que 35% não tem nenhuma renda. 

— Mesmo as que tem uma condição mais privilegiada não têm liquidez. Tem o patrimônio do casal, mas se ela precisar de dinheiro vivo para sair de casa e fugir de uma situação de violência, ela não tem. Essa dependência econômica é preponderante para que ela não consiga quebrar o ciclo de violência — explica a advogada Luciana Terra Villar, uma das lideranças da área jurídica do Justiceiras. 

A pesquisa do Fórum de Segurança Pública também identificou que a precarização das condições de vida no último ano foi maior entre as mulheres que sofreram violência: 62% delas afirmaram que a renda familiar diminuiu no período e 47% perderam o emprego.

O levantamento mostra ainda que a maior parte delas (45%) não fez nada sobre a agressão sofrida. Um terço alegou ter resolvido a situação por conta própria e quase 17% julgaram que a violência que sofreram não era importante o bastante para procurar a polícia. 

— Diante desse cenário, quando essa mulher olha em perspectiva, a grande preocupação da vida dela é garantir que vai ter almoço para todo mundo em casa, que o filho vai ter o que comer. O que a gente percebe é que a violência talvez não seja o elemento mais importante da rotina dela e que uma situação de insegurança alimentar a faça aceitar determinados tipos de violência, especialmente para proteger os filhos — analisa Bueno. 

A pesquisa entrevistou 2.079 pessoas, sendo 1.093 mulheres, entre os dias 10 e 14 de maio de 2021, em 130 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para as perguntais gerais e de três pontos para as direcionadas às mulheres. 

Vítimas e agressores 

Entre as formas de violência, a mais citada foi a ofensa verbal, sofrida por 18,6% das entrevistadas, seguida por tapas, chutes e empurrões (6,3%), ofensas sexuais ou tentativas de estupro (5,4%), ameaças com faca ou arma de fogo (3,1%) e espancamento ou tentativa de estrangulamento (2,4%). Com isso, a pesquisa estima que 8 mulheres tenham sido agredidas fisicamente a cada minuto durante a pandemia. 

O perfil das mulheres agredidas e dos agressores pouco mudou. Sete em cada dez agressores eram conhecidos da vítima, sendo 43% companheiros ou ex-companheiros. Surgem ainda outros atores que em pesquisas anteriores eram pouco participativos: pai e mãe (11,2%), padrasto ou madrasta (4,9%) e irmãos (6,1%).

Entre as vítimas, a maior parte das tinha entre 16 e 24 anos (35,2%) e 25 a 34 anos (28,6%) e eram negras (28,3% pretas e 24,6% pardas). Chama atenção a maior prevalência de violência entre as mulheres separadas e divorciadas: 35%, contra 30,7% entre as solteiras, 16,8% entre as casadas e 17,1% entre as viúvas. 

— O momento do rompimento da relação é o de maior risco e exposição dessa mulher à violência. Os casos mais graves são relatados entre essas mulheres separadas e divorciadas. Até porque, separar não significa um rompimento total do laço com o agressor. Se ela tem um filho pequeno, vai ter que conviver com ele por anos. A gente tende a achar que quando a mulher termina o relacionamento, ela sai da situação de violência, mas é nesse momento que ela está mais vulnerável — afirma Bueno. 

Cinco em cada dez brasileiros (51,1%) relataram ter visto uma mulher sofrer algum tipo de agressão no seu bairro ou comunidade ao longo dos últimos 12 meses e 73,5% acreditam que a violência aumentou durante a pandemia. Para Bueno, além de pensar na etapa policial e judicial e reforçar as redes de atendimento à mulher em situação de violência, é preciso pensar em políticas que contribuam para a sua autonomia econômica: 

— O que a pesquisa revela é que se não pensar em políticas de transferência de renda ou de reinserção das mulheres no mercado profissional, a gente não vai contornar esse cenário de violência — diz a pesquisadora, e vai além — Mudar esse cenário necessariamente depende de uma desconstrução de um tipo de cultura. Isso leva gerações e no momento parece que estamos indo no sentido contrário.