Uma encrenca para Sergio Moro

Yahoo Brasil
O deputado Flavio Bolsonaro e seu pai, o presidente eleito Jair Bolsonaro REUTERS/Adriano Machado

Na mesma semana, os filhos de duas forças opostas do espectro político foram citados em duas notícias distintas sobre movimentações financeiras atípicas.

Um deles é Luis Claudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula citado em depoimento do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci à Justiça Federal. Segundo o relato, o petista renovou uma medida provisória, que beneficiava duas montadoras, em troca de dinheiro para uma empresa do seu caçula. A defesa do ex-presidente nega a acusação.

Na mesma semana, veio à luz um relatório produzido pelo Coaf, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, em desdobramento da Operação Lava Jato no Rio, que indica uma movimentação financeira estranha de R$ 1,2 milhão realizada por um ex-assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, filho do presidente eleito. Uma das transações resultou em um cheque de R$ 24 mil à ex-secretária parlamentar Michelle Bolsonaro, atual companheira do capitão reformado.

Por meio de sua assessoria, o deputado, eleito senador em 2018, disse não ter qualquer informação que desabone a conduta do ex-assessor, um PM que trabalhava como seu segurança e motorista entre 2007 e outubro de 2018. Durante a campanha, outros dois policiais ligados a Flávio Bolsonaro, que colaboravam com sua campanha, foram alvo de uma operação que apurava um suposto esquema de extorsão.

Até o fechamento desta coluna, o presidente eleito ainda não havia se pronunciado em seu Twitter sobre o caso. O script, até aqui, é colocar sob suspeita, como fizera com o caso de uma suposta funcionária fantasma e do suposto uso indevido de verbas públicas para viagens e moradia, qualquer trabalho jornalístico que faça a mediação entre ele e seus eleitores, estratégia recorrente também na fala de Lula, seu antagonista que costuma atribuir críticas e suspeitas à má intenção de investigadores e imprensa golpistas.

Ao menos nisso os opostos se assemelham.

No jogo de espelho está uma figura central, o ex-juiz federal Sergio Moro, responsável pela condenação de Lula em primeira instância e nomeado ministro da Justiça do adversário petista.

Sob sua guarda estará em breve o Coaf, o mesmo conselho que anexou a movimentação suspeita do ex-assessor do filho de Bolsonaro. No dia em que o caso veio à tona, Moro afirmou a seus conselheiros que o órgão, um dos pilares de sua anunciada estratégia de integração entre a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e unidades de inteligência financeira, terá total independência.

O desafio será seguir o dinheiro.

Antes de a nova equipe assumir, os citados no noticiário terão tempo de sobra para explicar a movimentação suspeita e refutar qualquer sinal de proximidade com o núcleo político desarticulado pela Lava Jato no Rio.

O estado onde o atual governador está preso, a exemplo de um ex-presidente da Câmara, da Assembleia Legislativa, de deputados locais e conselheiros do tribunal de Contas, é símbolo do desmoronamento nacional.

Bolsonaro e seu grupo político estavam em pleno mandato eletivo enquanto as traças corroíam o erário e, consequentemente, a segurança pública fluminense. Seus eleitores estão ansiosos para saber como, agora no topo da hierarquia, eles promoverão, fora das redes sociais, o combate a práticas ilícitas, e não apenas a adversários que praticaram ilícitos.

Em suas primeiras manifestações, Moro não demonstrou a mesma rigidez do tempo de magistratura ao se referir aos futuros colegas, entre eles um futuro ministro da Casa Civil suspeito de receber caixa 2 e que ganhou o perdão por ter se desculpado.

O Brasil está curioso para saber sua opinião sobre ex-motoristas suspeitos de circular por aí com milhões.