Uma espiada no submundo da internet

Quem costuma visitar o submundo da internet, sabe que a certa altura presenciará uma discussão política acalorada. Nesses momentos, nosso instinto de sobrevivência pede que tiremos de dentro do bolso do paletó uma bomba de fumaça ninja e desapareçamos do local imediatamente. Enquanto a reação da maioria das pessoas é fugir correndo da discussão eu prefiro me sentar e assistir, repimpado da minha varanda, às reações das pessoas lá embaixo como se estivesse vendo um filme de kung fu do Stephen Chow. É o tipo de espancamento e de malabarismo que se vê nos melhores filmes de Hong Kong; as cenas de luta são impressionantes.

Não consigo ficar indiferente às pessoas que se esgoelam por causa de política. Para começar, fico chocado que, num dos países mais corruptos do mundo e com um histórico de banditismo e desvario econômico, ainda seja possível encontrar uma massa de militantes que defenda seus políticos e partidos políticos com tamanha violência e histeria. Por mais estranho que pareça, é muito comum encontrar pessoas que desfazem amizades para defender um sujeito que conhecem apenas pelo horário político obrigatório. Ao ouvir um militante partidário defender um político envolvido em algum escândalo de corrupção, olho para ele e, na minha mente, vejo logo uma mulher humilhada, com o olho roxo de tanto apanhar do marido bêbado mas que, mesmo assim, continua a defendê-lo nas reuniões de família:

— O maior erro do Silvonei foi ter me amado demais.

— Mas filha, ele quebrou suas costelas.

— Me empurrar contra a quina da mesinha da sala depois de me dar seguidas cotoveladas no rosto é o jeito dele de demonstrar que me ama.

Se bem que, preciso dizer, gastar centenas de horas da minha vida assistindo às discussões políticas da minha varanda me permitiu observar o efeito da militância no organismo das pessoas. Agora conheço todas as desculpas, golpes e esquivas concebíveis para alguém defender um ministro corrupto ou um presidente que jogou o país na maior recessão da história. Não é um tempo perdido, é um estudo permanente que vale a pena e que recomendo a todos. A vida sem as discussões políticas do submundo da internet é só angústia.

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