'Uma linda mulher' completa 30 anos entre erros e acertos quando interpretado pela ótica feminista

Eduardo Vanini

Eu digo quando, eu digo quem.” A frase serviria como uma bela tatuagem temporária a ser desfilada nos carnavais que acabaram de cortar as ruas do país, mas foi dita há 30 anos nas telas de cinema do mundo inteiro. São palavras que saíram da boca da garota de programa Vivian, interpretada por Julia Roberts, no filme “Uma Linda Mulher”. O tom, hoje “empoderado”, se faz presente em alguns diálogos do longa que virou ícone pop e rendeu um Globo de Ouro à atriz.

Mas não se engane: falamos aqui de um conto de fadas tradicionalíssimo, com direito a uma infalível madrinha (lembra do gerente do hotel que ajuda a personagem a se adequar às convenções?) e príncipe escalando a torre — ou metade dela — para salvar a sua amada. Papel, aliás, reservado ao ricaço Edward, interpretado por um grisalho Richard Gere, que, em duas horas de filme, pede à sua “princesa” que deixe de rebolar em três momentos diferentes.

Três décadas depois de Vivian ser “salva” das ruas de Beverly Hills, fomos atrás de especialistas em cinema e cultura para destrinchar os pontos altos e baixos do filme. Embora esteja longe do rótulo “cult”, o longa de Garry Marshall suscita bons debates, passando pela sua própria concepção. Pouca gente sabe, mas trata-se de uma produção feita pela Disney, o que impactou diretamente os rumos da trama. Há alguns anos, o ex-chefe dos estúdios de Mickey Mouse, Jeffrey Katzenberg, chegou a declarar numa entrevista que, no roteiro original, a protagonista era fortemente envolvida com drogas e morreria de overdose. “Era um filme para maiores de 18 anos”, ele disse, deixando claro que essa história não teria espaço no estúdio de Cinderela e Branca de Neve.

O filme chega a mostrar uma realidade mais dura, com uma prostituta assassinada e outra que usou o dinheiro do aluguel para comprar drogas, nas cenas iniciais. Mas, como destaca a pesquisadora Carolina Amaral, que estudou comédias românticas em seu doutorado na UFF, a história segue muito rapidamente para o conto de fadas. “Se a outras personagens são destinadas essas tramas violentas, à protagonista é reservado o glamour da profissão”, afirma. “Mas, ao se aproximar das convenções narrativas da comédia romântica, o filme realmente inova. Tanto que a cena mais importante entre Vivian e Edward é a da primeira vez em que eles se beijam. Os dois já estavam juntos por cinco noites, sendo que, na primeira, ela diz ‘faço tudo menos beijo na boca’, porque é muito íntimo. Quando Vivian quebra o seu próprio regulamento, é o clímax da história. A cena é sexy porque é íntima, não porque eles estão fazendo sexo. A novidade, para mim, é substituir sexo por intimidade no centro da discussão, ao falar de prostituição.”

Do ponto de vista técnico, o filme não deixa a desejar. Tem roteiro azeitado, boa direção de arte e trilha sonora cheia de sucessos, com direito a David Bowie, Prince e Roxette. “Quem nunca saiu carregando sacolas de uma loja com aqueles rifes de guitarra de ‘Oh, Pretty Woman’ na cabeça?”, brinca Luciana Rodrigues, professora de Cinema e coordenadora da pós-graduação em Gestão de Produção e Negócios Audiovisuais da Fundação Armando Alvares Penteado.

A canção de Roy Orbison, aliás, embala uma das cenas mais icônicas, quando Vivian é levada por Edward para um banho de loja. “Um dos aspectos mais latentes no longa é a lógica do consumo. A protagonista só se torna alguém quando vira uma consumidora. Depois disso, ainda tem a cena em que ela volta à loja onde foi humilhada para se vingar das vendedoras”, comenta a professora.

O consumismo se faz presente ainda nos ícones sustentados pelo personagem de Gere. Tem celular, Limusine, jatinho particular e o tal Lotus Esprit 1989, a bordo do qual ele conhece Vivian. Sobre esse assunto vale uma curiosidade: Ferrari e Porsche foram sondadas para a sequência, mas se recusaram, porque não queriam que seus possantes fossem associados à prostituição.

Do ponto de vista estético, a jornalista de moda Erika Palomino exalta o figurino e a construção de imagem feita pelo filme. “Julia Roberts se faz bastante crível, muito carismática e envolvente. Suas roupas e penteados vão se transformando, do espalhafato inicial até a sua versão mais sóbria”, lembra. As roupas, segundo ela, também espelham o momento em que a produção foi feita, no final dos anos 1980, com todos os seus excessos, “consolidando as botas de cano altíssimo que fizeram história”.

Erika não deixa de observar, porém, o aspecto comportamental, em que Vivian “dá aulas de ética” a Edward. “As pessoas se identificaram com a história e torciam por ela. Talvez, tenha diminuído, de certa forma, o preconceito sofrido pelas garotas de programa. Mas, no geral, a abordagem é machista e patriarcal, o que se salienta diante dos valores e da agenda dos dias atuais.”

A professora da Escola de Comunicação da UFRJ Ivana Bentes concorda com a ressalva feita por Erika. E nota que, historicamente, o cinema sempre oscilou entre posturas “muito maniqueístas” em torno da prostituição, glamourizando ou demonizando a profissão. “‘Uma linda mulher’ segue essa linha da prostituta como uma ‘bonequinha de luxo’, para citar outro clássico”, ela diz, considerando a abordagem insustentável nos dias de hoje. “Uma simples inversão de ponto de vista faz toda a diferença. Veja o filme ‘A Bela da Tarde’, de Buñuel, com Catherine Deneuve, por exemplo. A obra é impactante e feita do ponto de vista da mulher. Mesmo “Bruna Surfistinha” traz outra visão a partir da mulher que mostra que, além de prostituta, pode ser mãe, avó, ter vida social e outros interesses e atividades.”

Teria, então, “Uma linda mulher” envelhecido mal? “Alguns elementos ganharam contornos mais kitsch, como o sonho de ser uma princesa resgatada num cavalo branco e os elementos do personagem de Richard Gere para mostrar seu status social. Também há outros pontos, como o fato de não haver personagens negros em papéis relevantes no filme”, menciona Carolina Amaral. “Mas a construção de Vivian, por enquanto, resiste ao teste do tempo. Há uma ambiguidade interessante até hoje de ela vender o corpo, mas nunca se vender ou sentir-se barata.”

Naquele 23 de março de 1990, a personagem já avisava: “Posso fazer o que quiser, amor”.