Uma semana antes de operação da PF, Ibama já descartara teoria que apontava navio grego principal suspeito de vazamento de óleo no litoral

Bruno Alfano

RIO — O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) já havia recebido e descartado as imagens que foram utilizadas como base para a Polícia Federal (PF) apontar, no dia 1 de novembro, o navio grego Bouboulina como principal responsável pelo derramamento de óleo no litoral brasileiro, uma semana antes de a PF realizar a Operação Mácula.

A informação foi apresentada por Pedro Alberto Bignelli, do Centro Nacional de Monitoramento e Informações Ambientais do Ibama (Cenima), em depoimento à Comissão Paralamentar de Inquérito (CPI) que investiga o aparecimento de óleo cru na costa do Nordeste e do Sudeste.

— Vendo as imagens eu não me senti confortável de assumir aquilo como um relatório até verdadeiro — afirmou Bignelli, que ainda classificou como "muito pouco provável" que a embarcação tenha sido responsável pelo derramento de óleo.

Segundo Bignelli, a empresa HEX Tecnologias Geoespaciais, que tem contrato de análise de imagens com o Ibama, levou o material para o Cenima e queria apresentá-lo com a condição de o órgão autorizar uma ordem de serviço — o que resultaria em um pagamento.

O coordenador-geral, afirmou na CPI que considerou o procedimento "inconsistente" e exigiu ver o material antes da contratação. Segundo ele, o valor cobrado era "elevado", mas que isso não foi levado em conta. O problema, segundo ele, foram as deficiências técnicas.

O GLOBO procurou a HEX, a Polícia Federal e o Ibama, mas não obteve respostas.

— A forma que foi apresentada nos chamou atenção porque estava em completo desarcordo com os termos de referência do contrato. Eles fizeram um relatório em seis dia úteis, com o trunfo de terem descoberto, entre aspas, a fonte desse derramamento — afirmou. — As imagens estavam sem coordenadas, com coloração duvidosa, que, em 25 anos de experiência, eu nunca vi.

Depois dessa apresentação, o Conima investigou a suspeita e concluiu que a mancha tinha "feição de clorofila".

— Feição de clorofila é completamente incompatível com o óleo e, por isso, ficamos tranquilos dizendo que era mais um falso positivo — afirmou.

Bignelli afirmou ainda que um diretor do Ibama afirmou que ele "comeu bola" após a repercurssão da ação da PF.

— E eu voltei a responder para ele: 'Não como bola. Não coloco meu currículo nesse trabalho' — declarou.

O técnico criticou a metodologia utilizada pela Hex. Segundo ele, a empresa simplesmente identificou a raiz da corrente marítima que vai até a Paraíba e o Rio Grande do Norte e cruzou com as embarcações que passaram pela área, mas não levou em conta outros fatores. No depoimento, ele ainda afirmou que o Ibama segue atrás da origem do óleo.

— Tendo em vista a quantidade e a qualidade do óleo (cru e denso), um navio mercantil estaria fora (das possibilidades), porque ele tem um diesel marítimo, que é leve. Só poderia ser um navio-tanque, e o único que passou na região com o transponder ligado era o Bouboulina, que é um dos navios mais modernos do mundo — disse. — Em nenhum momento ele parou (até o destino final, na Malásia). Um derramamento de oleo naquela quantidade é uma feição que demanda um impacto bastante grande na navegação.