'Uma vacina dessas pode acabar com a pandemia', diz médico que coordena testes para Pfizer

Ana Paula Blower
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Reprodução/TV Globo
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RIO — O coordenador do teste clínico da vacina de Covid-19 da Pfizer em São Paulo, Cristiano Zerbini, afirma que os dados parciais de eficácia do imunizante superaram as expectativas.

— Uma vacina dessas pode acabar com a pandemia — afirmou ao GLOBO o médico do Centro Paulista de Investigação Clínica e Servicos Médicos (Cepic).

Em um resultado preliminar divulgado hoje pela multinacional farmacêutica, a vacina apresentou 90% de eficácia, quando, segundo Zerbini, a expectativa era algo em torno de 70%.

— Foi uma gratíssima notícia. Se levar em conta que o FDA (a agência de vigilância sanitária americana) autoriza o uso de vacina quando diminui risco de uma doença em 50%, uma vacina que diminui em 90% é algo muito especial — afirmou.

O médico dá o exemplo da vacina contra herpes, já consolidada e muito utilizada no Brasil, que dá 55% de proteção e entre 60% e 65% para neuropatia do herpes. O número obtido para a nova vacina de coronavírus, caso se confirme ao final do teste, indica que a nova vacina tem potencial de debelar a pandemia nos locais onde for aplicada, caso esteja disponível em número suficiente de lotes.

— Isso significa que se 100 pessoas tomarem a vacina, 90 não vão pegar a doença. É o que podemos chamar de imunização comunitária — declarou.

Apesar de o Brasil ter abrigado parte dos ensaios clínicos da vacina, ainda não existe negociação fechada para que o país adquira lotes do produto com antecedência.

Os dados para liberação emergencial da vacina nos EUA serão apresentados à FDA (agência reguladora de fármacos nos EUA) na terceira semana de novembro. Para uma autorização, a entidade exige que os dados de segurança e eficácia de metade dos pacientes que já tomaram a segunda dose em todo o mundo sejam apresentados para que eles analisem.

'Testada aqui para ser usada aqui'

A vacina da Pfizer teve também um outro braço do teste clínico no Brasil, na Bahia. Os testes começaram no dia 7 de agosto no Centro de Pesquisa Clínica da OSID (Obra Social Irmã Dulce), em Salvador, que coordenou os trabalhos em escala nacional.

O infectologista Edson Moreira, chefe do ensaio clínico no Brasil, disse que está confiante de que a vacina da Pfizer venha a ser disponibilizada no país em algum momento.

Ele explica que o país de origem da pesquisa costuma submeter o registro primeiro, no caso os Estados Unidos. Mas ele acredita que, em breve, o mesmo ocorra no Brasil, com início do processo de regulamentação na Anvisa. A vacina ser utilizada e trazer benefícios para o Brasil, ele diz, faz parte de um compromisso ético da farmacêutica com o país.

— Está sendo testada aqui para ser utilizada aqui — afirmou.

O centro da OSID recrutou até agora na Bahia 1.750 voluntários com idades entre 16 e 85 anos, incluindo alguns portadores de HIV e de vírus das hepatites B e C.

Moreira diz que as instituições brasileiras participantes do teste da vacina da Pfizer deram contribuição "sem precedentes" para a saúde global. O centro na Bahia, ele explica, já tinha uma parceria antiga com a Pfizer para outros estudos, por isso foram procurados quando se cogitou trazer o estudo para o Brasil.

— A maior contribuição nessas colaborações é a parte científica. Poder fazer parte do desenvolvimento de uma vacina ou medicação de relevância como essa é algo sem precedentes. É algo que diz respeito à saúde global, extrapola nosso país, pode contribuir na fronteira de uma solução global, uma vacina amplamente esperada — afirma Moreira, que lembra a importância de seu centro:

— Já tivemos participação na vacina contra HPV, considerada por muitos como a descoberta do século — conta.

Pressão por resultados

Além de todo o cuidado com a segurança dos ensaios, o pesquisador lembra também que o estudo foi acompanhado de muita pressão por resultados. Para manter o rigor nos protocolos, contou com aumento de equipe e com a infraestrutura da gigante farmacêutica Pfizer. Foi necessária uma logística grande para atender a um “número sem precedentes” de voluntários de pesquisa, diz. O centro da Bahia, segundo Moreira, foi o segundo no mundo em número de participantes.

— Até ontem tínhamos expectativas e esperanças não só na nossa vacina como nas das outras. Hoje temos algo se concretizando, dados de eficácia mostrando que a vacina protege e com eficácia muito elevada comparada às melhores que nos dispomos no mundo — diz. — Agora vêm os próximos, como produzir em quantidades suficientes para a população, garantir a distribuição e que ela chegue para todas as pessoas. Não são desafios menores.

Zerbini, do Cepic, agradeceu em entrevista os voluntários do estudo.

— Os verdadeiros responsáveis pelo sucesso dessa vacina são os participantes, quem veio voluntariamente participar da pesquisa e está ajudando o mundo inteiro. São pessoas profundamente altruístas e merecem nosso maior respeito — disse.