'Undine': diretor alemão Christian Petzold adapta antiga lenda e traz morte, natureza e magia na Berlim atual

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Ao final das filmagens de “Em trânsito” (2018), sobre um refugiado separado da liberdade e do amor pela vastidão do mar, o diretor alemão Christian Petzold se despediu de sua equipe contando uma versão improvisada do mito de Ondina, a ninfa das águas que se torna humana ao se apaixonar por um homem, mas é condenada a morrer se este lhe for infiel. Naquele momento começaram a tomar forma o time e a estrutura narrativa de “Undine”, o novo trabalho do cineasta, que revisita a lenda que já inspirou livros, óperas, balés e até outros filmes, para contar uma trágica e sobrenatural história de amor ambientada na Berlim de hoje.

Cidade sobre pântano

O filme, que estreia hoje nos cinemas brasileiros, abre com a dramática reação de Undine (Paula Beer) diante do rompimento com o namorado. “Se você me deixar, terei que matá-lo”, adverte a jovem, historiadora do Departamento de Planejamento Urbano de Berlim que trabalha como guia turística do Museu da Cidade. Naquele mesmo dia, antes que possa processar a separação, ela é cortejada pelo desajeitado Christoph (Franz Rogowski), mergulhador profissional que admira as palestras dela sobre o desenvolvimento arquitetônico da capital alemã. Quando o ex-amante tenta uma reaproximação, uma série de eventos misteriosos começa a acontecer.

Rogowski e Paula, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim pelo papel, reprisam aqui o par romântico de “Em trânsito”. Mas o roteiro de “Undine” combina elementos de diferentes fontes, como o clássico da Disney “A pequena sereia” (1989), e o folclore europeu inspirado na mitologia das figuras gregas conhecidas como Nereidas, as divindades das águas. O principal diferencial para o longa-metragem do autor de “Barbara” (2012) e “Fênix” (2014) veio mesmo, porém, do conto “Undine se foi”, da escritora austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973, publicado em 1961, que oferece uma leitura “feminista” do mito.

— Anos atrás, quando meus filhos insistiram para ver a sereia Ariel da Disney, eu concordei sob a condição de que antes eles teriam que conhecer o contos de fadas original, que é muito popular tanto na Alemanha quanto na França. Daí comecei a pesquisar sobre o assunto, e me deparei com o texto da Ingeborg — contou Petzold em Berlim. — Durante milhares de anos, o mito de Ondina tinha se mantido o mesmo: era a figura feminina que seduz o homem e, para sair da relação, ele ou ela têm de morrer. Ingeborg foi a primeira a contar essa história de um ângulo diferente, do ponto de vista de Ondina, e o que ela precisou fazer par a sair do ciclo, quebrar a maldição.

O mito de Ondine se mistura com a trajetória de Berlim, uma metrópole construída sobre uma região pantanosa que, para sobreviver, está sujeita a transformações e adaptações arquitetônicas desde a sua fundação, em tempos medievais. E a ocupação das personagens — ela, historiadora, ele, mergulhador — deixa a metáfora ainda mais clara: Undine não quer voltar para o lago do qual saiu, mas viver na cidade que ela conhece tão bem (há milhares de anos?) e ali encontrar o seu amor, sem precisar matá-lo ou matar-se. O romance entre os dois é acompanhado de despedidas em estações de trem, mergulhos e histórias sobre o passado da cidade e a esquecida ligação dela com a água.

— Do outro lado do canal, perto de onde moro, havia uma farmácia chamada Ondina. Perguntei a razão disso e me explicaram que Ondina também era conhecida por seus poderes curativos. Era por isso que muitas farmácias em Berlim situadas próximas aos seus rios e canais carregam o seu nome — lembrou Petzold, que mora na capital há 40 anos. —Berlim era conhecida como “A Veneza do Norte”, mas secaram os pântanos e canalizaram rios para que ela pudesse crescer. Junto, enterraram os lugares onde as criaturas de nossas lendas viviam, como está acontecendo com as florestas do Brasil. Undine é uma das últimas que restaram e que pode contar essa história.

‘Lixo na Tailândia’

“Undine” é o primeiro filme de Petzold depois de concluir a chamada “trilogia do amor em tempos de sistemas opressivos”, formada por “Barbara”, “Fênix” e “Em trânsito” — todos ambientados em períodos do passado recente da Alemanha. A nova trama, de alguma forma, fala sobre uma das formas de opressão do presente, suavizada pelo verniz do fantástico.

— Sabemos que o capitalismo está roubando a magia do mundo, transformando nossos sonhos, emoções e sentimentos em mercadorias negociáveis. O mundo vai acabar como lixo plástico nas praias da Tailândia — compara o diretor. — Meu desejo, como cineasta, é injetar um pouco de magia nesse mundo, como tentamos fazer com “Transit” e outros filmes. Não digo encontrar uma versão retrô das coisas. Veja o exemplo da banda Kraftwerk, de Dusseldorf. Ela trabalha essencialmente com música eletrônica mas, ao mesmo tempo, faz um som romântico. Se quisermos recuperar cidades danificadas, temos que acrescentar magia. É o que esperamos fazer com o cinema.

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