Em campanha tumultuada, golpes baixos foram mais frequentes do que propostas

Luis Miguel Pascual.

Paris, 21 abr (EFE).- Mais golpes baixos do que propostas marcaram a campanha para as eleições presidenciais na França, que viveu de investigações de corrupção de alguns candidatos a posições polêmicas na política internacional.

Pela primeira vez, os dois principais partidos do país, o Socialista e Os Republicanos, apresentaram candidatos que vieram de primárias abertas a todos os cidadãos, uma dinâmica que parecia favorecer mais os conservadores.

O vencedor dessa rodada, que aconteceu em novembro e contou com mais de 4 milhões de eleitores, ao que tudo indicava seria o ex-primeiro-ministro François Fillon, que aparecia em primeiro nas pesquisas de intenção de voto, páreo a páreo com a ultradireitista Marine Le Pen. No entanto, esse panorama foi por ladeira abaixo em 25 de janeiro, quando a revista "Le Canard Enchainé" revelou que o candidato conservador tinha dado a sua esposa Penelope um emprego fantasma como funcionária parlamentar.

O escândalo gerou dificuldades na campanha, tanto para Fillon como para seus simpatizantes, muito criticados pelos franceses. Os panelaços passaram a marcar seus comícios, e muitas das figuras fortes do partido, descontentes, abandonaram o candidato.

Apoiado por integrantes de setores católicos tradicionais, Fillon organizou um grande comício aos pés da Torre Eiffel em 7 de março, marcando o início de sua melhora nas pesquisas.

Também contribuiu o fato de os escândalos terem monopolizado apenas o primeiro debate na TV que reuniu os cinco favoritos, em 20 de março. No segundo, que teve os 11 postulantes, em 4 de abril, o protagonismo foi dos ataques do candidato da extrema esquerda, Philippe Poutou, a Fillon e Le Pen.

"Desde janeiro é uma festa, Fillon. Quanto mais cavamos, mais encontramos corrupção e trapaça", disparou Poutou, que também reprovou Le Pen por se apoiar na imunidade parlamentar para não prestar depoimento à polícia, apesar de se autoproclamar "antissistema".

"Nós não temos imunidade operária", disse o candidato, funcionário de uma fábrica de carros em Bordeaux, gerando grande repercussão nas redes sociais.

A candidata ultradireitista, que após as eleições regionais de 2015 tinha reduzido sua presença na mídia, começou a aparecer de forma massiva e organizou várias "conferências presidenciais" para apresentar seu programa eleitoral. Seus comícios também foram frequentemente interrompidos por manifestações de grupos da extrema esquerda, o que acabou em confrontos com as forças de segurançla.

No quesito comício, a medalha de ouro foi para o esquerdista Jean-Luc Mélenchon, bom orador e que chegou a reunir milhares de pessoas em várias cidades simultaneamente graças a um sistema de hologramas. O papel que ele desempenhou nos debates na TV e seu sucesso em comícios e nas redes sociais relançaram sua campanha ao ponto de desbancar o socialista Benoît Hamon como principal nome da esquerda.

Mélenchon privilegiou o contato direto com os eleitores em vez de entrevistas na TV. A estratégia permitiu que ele evitasse temas polêmicos que os oponentes reprovaram, em particular sua proximidade com líderes como o cubano Raúl Castro, o venezuelano Nicolás Maduro e o russo Vladimir Putin.

O socioliberal Emmanuel Macron, considerado favorito nas pesquisas, começou a campanha com um intenso "boca a boca" para ganhar espaço popular, já que nunca tinha participado de uma eleição. Na medida em que o primeiro turno se aproximava, Macron organizou grandes comícios com clara estética americana nos quais se empenhou em desmentir a imagem de candidato morno que era criticada por seus rivais.

Ministro da Economia entre 2014 e 2016 no mandato de François Hollande, Macron se apresenta melhor na frente das câmeras, e as pesquisas populares o apontaram como ganhador dos dois debates da TV. EFE