Unicef mapeia crianças em atraso vacinal com nova plataforma no Brasil

Um projeto do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) que ajuda municípios a mapear crianças em atraso no calendário vacinal encerrou sua fase piloto e colocará no ar em março uma plataforma para ajudar agentes de saúde a vacinar populações com baixa cobertura de imunizantes.

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O projeto Busca Ativa Vacinal, desenvolvido em parceria com a Fundação José Luiz Egydio Setúbal, funciona criando redes de monitoramento que envolvem não só profissionais de saúde, mas professores, assistentes sociais e e outros profissionais quem entram em contato frequente com o público para encontrar crianças com doses faltantes.

A metodologia do projeto foi testada em Abaetetuba (PA), Barreirinhas (AM), Baturité (CE) e Campina Grande (PB), e já conseguiu melhorar a taxa de vacinação que estava em declínio nessas localidades. Saindo da fase de implementação, o projeto busca dar suporte aos cerca de 2.000 municípios que compõem o Semiárido e a Amazônia Legal.

Na fase piloto, o trabalho foi feito usando um esquema de cadastro provisório. Na fase de implementação definitiva, a partir de março, o programa deve ganhar força em março com outro sistema que funcionará através de um aplicativo. O programa vai fotografar as carteiras de vacinação das crianças e criar um banco de dados com endereço para facilitar as políticas de recuperação em cada local.

Uma vez identificados, aqueles que não estão em dia com o calendário do Programa Nacional de Imunização (PNI), o programa ajuda o município a planejar como levar a vacina até onde é preciso.

Segundo Cristina Albuquerque, chefe de Saúde do Unicef no Brasil, a ideia é que esse esforço vá além da secretaria de saúde de cada município, envolvendo mais estruturas de apoio social.

— Com a situação tão grave das baixas coberturas, fica difícil para o setor saúde fazer sozinho o trabalho de recuperar as altas coberturas — diz. — As campanhas nacionais de vacinação que foram exitosas no passado, como a contra a poliomielite, geralmente envolviam toda a comunidade, todas as secretarias do município, e isso é algo que não se tem visto mais, de mais maneira geral.

Queda vacinal

O Unicef afirma que o que motivou a criação do novo programa foi a queda da cobertura vacinal verificada no brasil nos últimos seis anos, especialmente nos estados da região alvo. No caso da poliomielite, a paralisia infantil, as populações precisam de cobertura acima de 95% para prevenir novos surtos, mas em nove estados do Norte e do Nordeste a cobertura está abaixo de 70%, segundo o sistema DataSUS, do Ministério da Saúde. Os que estão em situação mais crítica são Amapá (44%), Roraima (50%) e Pará (56%).

Em toda a região alvo a cobertura também está abaixo do limiar de proteção para a vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) e para a pentavalente (contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e Haemophilus influenza).

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A primeira etapa do projeto mostrou que resgatar a taxa de vacinação nas regiões mais pobres do país não vai ser fácil.

— Em 2021, a gente não atingiu em Campina Grande a cobertura vacinal de nenhuma vacina. Agora em 2022, a gente melhorou muito em duas vacinas, incluindo a BCG, mas as demais estão todas com a cobertura vacinal baixa, a maioria abaixo de 50% — diz Samira Luna, coordenadora de imunização do município paraibano, que integrou a fase piloto do projeto.

Segundo ela, um dos aspectos importantes do projeto do Unicef é mostrar que a razão do atraso vacinal na maioria das vezes não é uma recusa por partes dos pais ou desinformação, mas dificuldade logísticas comuns em comunidades carentes.

— Em todas as casas em que a gente foi, a reação foi boa, de alegria. Muitos pais reconheciam que os filhos estavam com atraso vacinal, mas por algum tipo de dificuldade — conta. — No questionário do Unicef é elencado qual o motivo do atraso, e a maioria das respostas era que a mãe não tinha não tinha condição de sair de casa porque tinha várias crianças para tomar conta, e na pandemia de Covid-19, muitos ainda tinham medo de sair. Nenhuma resposta dada foi de recusa por não acreditar na vacina.

Com ajuda dos centros de referência e em assistência social e emprego de um veículo identificado para a população como "carro da vacina", a prefeitura conseguiu aplicar mais de 5 mil doses de vacina no ano passado em crianças e adultos que estavam com imunização em atraso.

Apesar de o foco do programa ser focado em criaças abaixo de 6 anos, o esforço acabou realizando por tabela a vacinação de alguns adultos.

O Unicef afirma que, para replicar a política implementada nos municípios de teste, um curso online está sendo administrado, e já teve presença registrada de profissionais de 1.500 municípios.

Outras ações

Além do programa de capacitação e apoio, a Busca Ativa Vacinal deve contar com algumas ações específicas para regiões com maior dificuldade de acesso.

— Em algumas locações nós vamos ter um trabalho no modelo de força-tarefa — diz Adriana Ribeiro diretora médica no Brasil para a Pfizer, empresa que está dando apoio financeiro e técnico para o projeto.

Em Abaetetuba (PA), próxima à foz do Rio Tocantins, será disponibilizado um barco para movimentar as equipes de busca e o aparato de vacinação.

— A gente vai ter esse tipo de ação em algumas outras cidades com maior dificuldade de acesso para as equipes — diz Ribeiro.

Albuquerque, do Unicef, afirma que o programa foi todo desenhado para a instituição trabalhar diretamente com prefeituras, mas acredita que a nova gestão do governo federal queira contribuir para a iniciativa de busca vacinal.

— A gente espera que se forme uma coalizão nacional, porque no passado o Brasil conseguiu excelente cobertura vacinal, através do PNI, e é possível fazer isso de novo — diz a médica.