Universidade de Brasília foi referência

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.

Na História, sempre encontramos surpresas paradoxais, porque os fatos têm efeitos contraditórios. Em 2022, comemoramos os 100 anos de Darcy Ribeiro, um dos simbólicos educadores brasileiros, e 60 anos da Universidade de Brasília (UnB), que remodelou a educação superior no Brasil.

Corte: governo anuncia bloqueio de R$ 6,7 bi

Esses fatos são inesperados, mas coincidentes, porque Darcy Ribeiro, o primeiro reitor da UnB, respondeu também como ministro da Educação e chefe da Casa Civil. Foi um educador cujas atividades eram permeadas por ações políticas. A UnB, nesse quadro, foi um projeto educacional, pontuado por uma proposta política, que não se explica pelo projeto político de seu primeiro reitor, mas pela história do educador Anísio Teixeira.

Eleições: Bolsonaro volta a defender "apuração paralela"

A situação paradoxal da UnB se explica porque Darcy Ribeiro estava entre os quadros do social-trabalhismo, que evoluiu no Brasil durante os anos 1930-40. Mas Anísio Teixeira, o vice-reitor, não era um militante político, era um educador que pretendia implementar em Brasília uma universidade infensa à tradição das escolas isoladas comprometidas com a cátedra vitalícia. Seu projeto se apoiava num modelo orgânico, como o das universidades norte-americanas, onde se educava a partir de novos métodos e técnicas de ensino. Anísio Teixeira trabalhou anteriormente no projeto da Universidade do Distrito Federal, com o apoio de Pedro Ernesto, cujas atividades foram iniciadas em 1935.

Lauro Jardim: saiba o que Haddad disse a empresários resistentes a Lula

O modelo de universidade de escolas isoladas estava esgotado. Ficava evidente que a remodelagem universitária evoluía para criar institutos de conhecimento (ciências exatas, ciências biológicas, ciências sociais, artes) organicamente integrados. As disciplinas básicas seriam oferecidas em conjunto por ciclos básicos de conhecimento. Esse sistema não acompanhava exatamente o norte-americano, em que as disciplinas, se não eram oferecidas por ciclos, compunham o processo introdutório de formação das universidades. O currículo profissional sucedia à formação básica. E as disciplinas especializadas eram oferecidas após a conclusão de determinado volume de créditos obtidos na forma curricular profissionalizante.

A implementação desse novo modelo de ensino na UnB ocorreu no momento em que o poder político foi ocupado pelos social-trabalhistas, entre eles Darcy Ribeiro. Como os institutos que primeiro se organizaram eram das áreas de ciências sociais e artes, os professores convidados se aproximavam do social-trabalhismo ou eram dissidentes do tradicional sistema de escolas isoladas — por razões de programa ou mesmo pela natureza crítica de seus trabalhos. Como se verifica, essa contradição que evoluiu no tempo histórico é o fundamento paradoxal da implantação da UnB, a causa essencial de suas crises, que prenunciaram a crise institucional de 1964-68.

Finalmente, estava tão evidente a necessidade de reordenar o ensino superior brasileiro que a reforma universitária de 1968 alterou os currículos clássicos e a estrutura das universidades em pleno governo militar. Essa reforma, paradoxalmente, assumiu o projeto da UnB, no modelo de institutos e numa estrutura universitária integrada por departamentos e ciclos básicos na forma do sistema de créditos. Muitas foram as resistências das escolas isoladas, por meio de leis e decretos. Por fim, nos anos 1980, a reforma foi aplicada, superando o sistema de escolas públicas isoladas e influenciando o sistema privado.

*Aurélio Wander Bastos, professor emérito da UniRio, foi aluno da Universidade de Brasília

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos