Universidade tem dois reitores após Bolsonaro nomear professora menos votada

PAULA SPERB
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***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 19.11.2020 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia em alusão ao Dia da Bandeira, na área externa do Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 19.11.2020 - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante cerimônia em alusão ao Dia da Bandeira, na área externa do Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - A 220 km de Porto Alegre, uma universidade federal terá dois reitores. Fato inédito no meio acadêmico, a reitoria em dupla da Ufpel (Universidade Federal de Pelotas) surgiu como resposta à decisão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) de nomear a segunda professora menos votada da lista tríplice entregue ao governo.

A reitora nomeada, porém, compõe a mesma chapa do reitor eleito. É uma tradição da Ufpel que a lista tríplice seja formada apenas por professores da chapa mais votada. Mesmo que o presidente tenha a prerrogativa legal de escolher qualquer nome da lista, a estratégia garante que será alguém que represente o projeto escolhido pela comunidade acadêmica.

A cerimônia de posse dos dois reitores está marcada para esta terça-feira (12), às 14h, com transmissão pela internet. Isabela Andrade foi nomeada reitora por Bolsonaro. O reitor eleito, Paulo Ferreira, assumirá oficialmente como pró-reitor de Planejamento, cargo que seria ocupado por Andrade na nova gestão. Ambos, entretanto, responderão como reitores.

"O que custa respeitar a vontade da comunidade? Respeitar a escolha é ter empatia com a universidade que escolheu quem considerou que estava mais preparado. Não vemos motivo nenhum para que nenhum presidente desrespeite a autonomia", diz Paulo Ferreira, reitor eleito.

Ao longo de 2020, a atenção nacional estava voltada para a Ufpel. A universidade liderou a pesquisa Epicovid-BR, que estudou a disseminação do novo coronavírus no país. Inicialmente, a pesquisa monitorava os casos do Rio Grande do Sul, porém, ganhou abrangência nacional.

Quem coordena o estudo é o epidemiologista Pedro Hallal, que era reitor da Ufpel na última gestão. Hallal enxerga na nomeação de um nome diferente do mais votado como uma retaliação de Bolsonaro.

"Este é o terceiro episódio [de retaliação]. O primeiro foi quando o governo decidiu cortar o financiamento do Epicovid-BR. Mas o tiro saiu pela culatra, porque conseguimos financiamento por outro lado. O segundo, ainda mais tosco, ocorreu quando fomos divulgar o estudo juntamente do Ministério da Saúde, que censurou os resultados sobre indígenas terem cinco vezes mais chances de contrair o coronavírus. Nós divulgamos os resultados em uma revista internacional. Agora foi o terceiro. Mas, mais uma vez o tiro saiu pela culatra. Porque ela é da mesma chapa. Tomou a decisão de aceitar a nomeação para garantir a legalidade [evitando a possibilidade da nomeação de um interventor, por exemplo]", disse Hallal à reportagem.

Segundo Hallal, a comunidade acadêmica tem comparado a estratégia dos novos reitores ao "Gambito da Rainha", série de sucesso do Netflix cujo nome é uma referência a um lance no jogo de xadrez.

A reitora nomeada diz que foi "um susto" descobrir que havia sido escolhida na lista tríplice porque já trabalhava na transição para assumir o cargo de pró-reitora de Planejamento. "Foi um susto bastante grande. Lamento que a nomeação não foi para o primeiro da lista, embora a gente soubesse que qualquer um poderia ser escolhido pelo presidente. Somos do mesmo grupo e tentaremos reverter", disse Andrade.

Em nota, o Ministério da Educação (MEC) afirmou que "a nomeação de reitor é de competência do Senhor Presidente da República, a quem é conferida a discricionariedade administrativa para a livre escolha entre os integrantes da lista tríplice encaminhada pelo MEC, independentemente da sua ordem, nos termos do inciso I do art. 16 da Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968".

O processo para escolha do reitor da Ufpel se inicia com uma eleição, sem peso formal, e voto paritário entre alunos, funcionários e professores. A chapa vencedora foi a Ufpel Diversa, com Paulo Ferreira como reitor, Úrsula Silva como vice-reitora. Na instituição, as chapas perdedoras costumam retirar seus nomes do processo seguinte, a eleição do conselho universitário.

Assim, os outros integrantes da chapa vencedora, Isabela Andrade e Eraldo Pereira, compunham a lista tríplice juntamente com Ferreira. No conselho, a maioria confirmou a vontade da comunidade acadêmica, com 50 votos para Ferreira, cinco para Andrade e três para Pinheiro.

O reitor eleito repudiou a decisão de Bolsonaro, mas considera o caso da Ufpel menos grave do que o ocorrido na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), com sede em Porto Alegre. Ali, Bolsonaro escolheu o terceiro colocado na lista tríplice, Carlos André Bulhões Mendes. Diferentemente da tradição da Ufpel, a lista tríplice da UFRGS é composta por candidatos de diferentes chapas. O escolhido tinha simpatia dos bolsonaristas.

"Nossa comunidade queria que eu fosse o reitor e me elegeu. Na nossa opinião, ninguém deveria ser colocado no constrangimento de assumir sem ser o mais votado. Isso desestabiliza, ninguém se sente bem. Mas a Isabela é nossa colega e construiu junto o programa que foi eleito. Ela teve esse desprendimento", diz Ferreira.