Universidades públicas se mobilizam para ajudar a recuperar sedes de Poderes

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 08.01.2023 - Golpistas invadem o Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 08.01.2023 - Golpistas invadem o Palácio do Planalto, em Brasília. (Foto: Gabriela Biló/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Universidades públicas estão se movimentando para oferecer ajuda na reconstrução das sedes do STF (Supremo Tribunal Federal), do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Senado, na praça dos Três Poderes, em Brasília, atacadas por golpistas apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no domingo (8).

A contribuição vai desde a oferta de mão de obra para a restauração do patrimônio histórico destruído pelos vândalos até a contribuição intelectual para o fortalecimento das instituições democráticas.

O Cecor (Centro de Conservação e Restauração de Bens Culturais), órgão complementar da Escola de Belas Artes da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), já colocou sua equipe especializada à disposição do governo Lula (PT), de forma voluntária, para uma primeira fase de avaliação dos estragos causados pelos vândalos.

O histórico do órgão é de atendimentos emergenciais, como o incêndio no Museu de História Natural da UFMG, em 2020, e o rompimento da barragem de Mariana (MG), em 2015, além da gestão de riscos na recuperação do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

"Agora os Três Poderes da República precisam de ajuda. Temos expertise e especialistas qualificados. A prioridade deve ser aos que têm menos possibilidade de agir e me parece que no caso seria o STF, que também vai precisar desse tipo de ajuda", afirma o vice-diretor do Cecor, Luiz Antonio Cruz Souza.

Ele explica que o setor de conservação da Câmara dos Deputados tem uma equipe para recuperação, inclusive com ex-alunos do Cecor. "Me sinto mais tranquilo em relação a esses acervos porque esse pessoal tem formação adequada para fazer esses primeiros socorros. Mas as equipes de recuperação são reduzidas."

Ele compara as obras de arte, históricas, mobiliários, fotos e documentos danificados pelos supostos patriotas, a maioria vestido com a camiseta da seleção brasileira ou entoando a bandeira do Brasil, ao atendimento a um paciente que aguarda por socorro do Samu.

"Você não pode mexer naquela pessoa até a ambulância chegar. É a mesma situação em Brasília", explica.

Ele diz ainda que a Polícia Federal é a primeira a chegar ao local para fazer a perícia, mas que, para ter noção das perdas, precisa da ajuda de especialistas. Muitos deles tiveram aulas com o Cecor para distinguir o que é obra de arte.

Antes do restauro, porém, é preciso fazer um diagnóstico do que foi danificado para posteriormente iniciar a recuperação, diz Souza.

"O lixo que vai ser gerado a partir dessas limpezas tem que ser bem vasculhado, porque pode haver peças de mobiliário espalhadas parecendo uma madeira qualquer. E na verdade ser parte de uma cadeira, de uma moldura ou de uma obra que são parte da história, e podem ser confundidas com alguma coisa sem valor."

Souza explica que muitas obras estão molhadas e outras foram atingidas por vândalos. Nessa primeira fase, ele explica, é preciso fazer um rescaldo para recuperar esses itens, secá-los e armazená-los de forma correta para evitar outros problemas, como fungos.

"É uma situação de guerra. Por isso queria ressaltar a importância dos inventários. Sem isso, não há como avaliar a extensão do dano", diz Souza.

Outra instituição que se voluntariou a ajudar foi a UnB (Universidade de Brasília). Professores e ex-alunos estão formando um grupo de trabalho em parceria com o Instituto Federal de Brasília para elaborar um plano de ajuda aos Três Poderes.

"Eles já têm um convênio com o Iphan para restaurar e a parte policial também precisa ser concluída para que os profissionais possam começar um diagnóstico. Mas já nos colocamos à disposição. Precisamos que haja esse 'sim' do governo. Toda a ajuda é necessária para evitar se perder a história do Brasil", afirma a professora Ana Claudia Maynardes, do departamento de Design da UnB.

Segundo o reitor da Universidade Federal do Pampa (RS), Roberlaine Ribeiro Jorge, a intenção é colocar a Unipampa à disposição nas mais diversas áreas.

"Vou enviar documento ao governo federal colocando a universidade à disposição. Entendemos que podemos dar suporte na área de segurança de dados, gestão pública e com projetos de pesquisa, ensino e extensão que tratem dessas temáticas", afirma o dirigente.

Professor da área de restauração da escola de belas artes da UFBA (Universidade Federal da Bahia), Túlio Almeida diz que é necessário um diagnóstico completo para elaborar um programa de ajuda das universidades.

"Nós temos professores e técnicos que podem contribuir com esse diagnóstico. A partir daí, de acordo com os materiais dessas obras, podemos propor quais universidades podem contribuir melhor", diz o professor.

Campo jurídico Além da parte de restauração das obras destruídas pelos golpistas, a discussão jurídica também deverá movimentar faculdades de direito pelo país.

"Acho que algumas coisas podem ser feitas. Claro que com limitações, pois essa eventual ajuda da universidade acaba tendo, às vezes, um caráter mais político-militante do que propriamente acadêmico. Então é preciso tomar cuidado", diz Celso Fernandes Campilongo, diretor da Faculdade de Direito da USP.

Na segunda-feira (9), um dia após os ataques, a faculdade realizou um ato em defesa da democracia, no salão nobre da instituição, que reuniu mais de 800 pessoas.

"O que houve [no ataques do dia 8] foi uma aberração, não é digno de uma sociedade civilizada. É uma barbárie completa. O direito é incompatível com a barbárie, a cidadania é incompatível com a violência. Então, mais do que oportuno, que as faculdades de direito, de uma maneira geral, se manifestem numa situação dessa."

Para Campilongo, as faculdades podem desempenhar, de uma forma mais intensiva, o cultivo da relevância e da importância da democracia para manutenção das liberdades e para a promoção de um desenvolvimento econômico mais igualitário.

"Não existe muito civilizado sem direito, não existe sociedade sem respeito à legalidade."