Usar cloroquina contra a Covid-19 deixou de ser ético, dizem universidades

PHILLIPPE WATANABE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pesquisadores da Fiocruz, da USP, da UFRJ, da UEA (Universidade do Estado do Amazonas) e da Academia Nacional de Medicina afirmam, em nota conjunta publicada nesta quarta-feira (20), que as pesquisas publicadas até o momento não mostram resultados positivos no uso de cloroquina em qualquer dose ou estágio da Covid-19 e que a utilização rotineira, fora de estudos, não é mais ética.

A nota publicada por especialistas de alguns dos principais centros de conhecimento do país afirma que, no início da pandemia, a ausência de opções justificava o uso da cloroquina e hidroxicloroquina.

"Desde então, surgiram dados in vitro, modelos animais e, mais importante, inúmeros estudos observacionais, todos com resultados semelhantes. Se no início havia incerteza e plausibilidade biológica, essas não mais existem", dizem os pesquisadores. "Nenhum estudo observacional publicado sugeriu claro benefício. Pelo contrário, vários indicaram potenciais malefícios."

Assim, levando em conta "algumas claras certezas", os cientistas afirmam que "não é mais ético fazer uso rotineiro da medicação, fora de estudos clínicos".

A SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) também divulgou posicionamento em que aponta a ausência de eficácia da hidroxicloroquina (associada ou não à azitromicina) contra o novo coronavírus, segundo os estudos feitos até o momento.

"A ciência deve ser a luz que norteia um país e o mundo nas decisões médicas sobre tratamentos", diz a diretoria da SBI.

Os textos se juntam a diversos estudos e a recomendações internacionais que alertando para o perigo de eventos adversos graves e possivelmente letais com o uso de cloroquina e hidroxicloroquina.

Mais cedo, também nesta quarta, após determinação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o Ministério da Saúde ampliou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para pacientes com quadro leve de Covid-19.

Depois da publicação do novo protocolo, Bolsonaro admitiu que não há respaldo científico para a indicação.

A nota das entidades também diz que cabe ao poder público garantir o bem-estar da população e "não a submeter ao risco adicional de um tratamento sem garantias de segurança e eficácia sob a chancela de uma política nacional de saúde".

O documento lista os estudos disponíveis sobre a cloroquina e desmonta os argumentos comumente usados para defender a droga. Cita, por exemplo, a ausência de eficácia da droga já em estudos in vitro. O medicamento apresenta alguns resultados em células genéricas infectadas pelo Sars-CoV-2, mas a ausência de ação antiviral em células que fazem parte do trato respiratório humano.

Os cientistas também falam sobre a utilização da droga em fases iniciais da doença, o que é defendido por Bolsonaro. Dizem que o estágio da doença pode, de fato, influenciar o resultado da ação terapêutica, mas isso não significa que o medicamento não funcionaria em fases mais avançadas, como era indicado antes.

"Seria como não recomendarmos a administração de antibióticos em pacientes com sepse grave, na UTI", dizem os autores da nota.

Além disso, a análise elenca estudos sobre o uso preventivo da droga, também sem resultados positivos.

Os pontos levantados também ressoam no documento da SBI, segundo o qual "corremos o risco de administrar medicamentos para centenas de milhares de pacientes sem sabermos se os pacientes foram beneficiados, prejudicados ou se nada mudou na evolução", diante da ausência de estudos sérios, controlados e randomizados (nos quais os pacientes são aleatoriamente divididos em grupos para testar um medicamento).

A sociedade médica também afirma que a expectativa é que 97% das pessoas sintomáticas com Covid-19 se curem mesmo sem tratamento viral.

A SBI, junto com a Amib (Associação de Medicina Intensiva Brasileira) e a SBPT (Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia) , já havia divulgado um documento contraindicando o uso de cloroquina no tratamento da Covid-19.

Além das entidades e pesquisadores brasileiros, o guia de recomendações da autoridades de saúde dos EUA contraindica a combinação de hidroxicloroquina e azitromicina contra o novo coronavírus.

A recomendação americana, divulgada pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (Niaid, na sigla em inglês) foi elaborada por 13 entidades, entre elas o CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA), a FDA (agência que regula remédios) e associações médicas do país.