USP aprova criação de pró-reitoria focada em inclusão e diversidade

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Universidade de São Paulo aprovou nesta terça (3) a criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, um novo órgão administrativo que tem como objetivo aumentar a diversidade dentro da universidade e aproximá-la da realidade brasileira. A aprovação já era dada como certa e foi adiantada pela reportagem nesta segunda (2).

Criação da nova entidade foi aprovada por 102 votos favoráveis, nenhum contra e duas abstenções. Trabalhos têm início já nesta quarta (4) e terá como sede o prédio onde fica a reitoria da USP.

Segundo o reitor da universidade, Carlos Gilberto Carlotti Júnior, já existem alguns projetos programados para a nova pasta, que deverá contar com um orçamento próprio para implementá-los. A verba para o órgão terá pouco impacto no orçamento da universidade, inferior a 1%, segundo assessoria da instituição.

Uma das razões para o pequeno impacto do novo órgão é o seu caráter reestruturador, unindo sobre uma nova entidade outros órgãos já existentes como os dedicados a mulheres e aos Direitos Humanos, por exemplo.

"Essa pró-reitoria está embebida do espirito público. A produção do conhecimento e da ciência não acontece no vácuo. Quando trabalhamos em contextos diversos, nós temos condições de produzir não só ciência, conhecimento e cultura mais responsáveis, mas avançamos no sentido da reflexão sobre a diversidade. A inclusão e a diversidade emulam o conhecimento", disse a vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda durante a discussão do projeto na reunião do Conselho Universitário da USP nesta terça.

Com o aval para a criação da nova pró-reitoria, o Conselho também deliberou sobre as indicações para a administração da entidade, aprovando a gestão que fica a cargo de duas mulheres.

A nova pró-reitora é Ana Lucia Duarte Lanna, atual diretora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP). Já a pró-reitora adjunta é Miriam Debieux Rosa, professora do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP (IP-USP).

O novo órgão funcionará no prédio da reitoria e será dividido em cinco áreas: Vida no Campus; Saúde Mental e Bem-Estar Social; Mulheres, Relações Étnico-Raciais e Diversidades; Formação e Vida Profissional; e, Direitos Humanos e Políticas de Reparação, Memória e Justiça.

Entre os temas que devem ser objeto de trabalho do novo órgão estão as políticas de permanência, responsáveis por auxiliar os estudantes em questões como moradia e transporte, por exemplo.

"O ideal é que o estudante tenha moradia física na universidade ou uma bolsa para morar em uma das cidades onde temos campi. Se o aluno tiver um pacote de apoio inicial quando entra na universidade, ele poderá se preocupar só com o estudo e aí teremos uma universidade de excelência, porque no fim o que queremos é a qualidade de formação, que nossos alunos sejam os melhores, mas para isso precisamos de mais do que bons professores, precisamos ter ações fora da sala de aula", diz Carlotti.

O reitor afirmou ainda que a pró-reitoria deve ter como um de seus primeiros projetos uma reformulação do sistema de bolsas de permanência, que atualmente estão divididas em diversas categorias.

O plano, diz ele, é criar um sistema para unificá-las, o que deve facilitar a vida dos estudantes. "Hoje o aluno tem que solicitar a bolsa depois de entrar na universidade, queremos que o aluno passe a ter a bolsa já no ingresso", afirma ele.

Questionado se a nova pró-reitoria trabalharia também para aumentar o número de professores negros na USP, Carlotti disse que o órgão não vai se restringir aos estudantes e terá sob seu guarda-chuva toda a comunidade universitária, incluindo docentes e funcionários de apoio.

Ele afirmou ainda que apesar de a nova pró-reitoria trabalhar aspectos de diversidade, não é possível colocar somente nas costas deste novo órgão toda a responsabilidade sobre o tema.

"Essa mudança cultural na universidade deve ser uma preocupação global. O objetivo é que tenhamos no quadro docente a mesma expressão de diversidade que se tem no corpo discente e na sociedade. A diversidade precisa aparecer no corpo docente, porque senão fica difícil justificar uma universidade que seja diferente da sociedade. Essa precisa ser uma meta da USP", afirmou.

Para conseguir atingir esse objetivo, cada unidade de ensino e pesquisa da USP terá um professor responsável por fazer a ponte com a nova pró-reitoria. Esses profissionais terão, segundo Carlotti, um acréscimo salarial compatível com a adição de função.

"Hoje, na USP, apenas 2% se autodeclaram negros. É uma vergonha para a USP que não tenha professores negros nesse espaço", disse Leticia Chagas, presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, que também defendeu a criação de um vestibular indígena em sua manifestação antes da votação. A USP tem, atualmente, quase 6.000 professores.

Ao todo, A USP tem 42 unidades de ensino e pesquisa, 6 institutos especializados e 4 museus espalhadas pelos seus 8 campi (Capital, São Carlos, Piracicaba, Pirassununga, Ribeirão Preto, Lorena, Bauru e Santos). Para se ter uma ideia, os 51 representantes da pró-reitoria em unidades da USP custarão por mês pouco mais de R$ 1,6 milhão.

No último dia 22 de fevereiro, Carlotti anunciou que a USP deve implantar um sistema de banca de heteroidentificação racial para evitar fraudes. O sistema deve passar a valer no vestibular de 2022-2023.

A universidade passou a adotar o sistema de cotas que usa atualmente em 2017.

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