USP monta 1º laboratório do Brasil para estudar DNA de povos antigos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com três luvas roxas de látex, um macacão branco (igual aos que se tornaram populares no combate à Covid), óculos de proteção e máscara, o biólogo Tiago Ferraz tenta evitar a contaminação de seu próprio DNA em restos de ossos de indivíduos que viveram há 11 mil anos no país, onde hoje é a região de Lagoa Santa (MG).

Apesar de parecer estranho, o procedimento é algo rotineiro em laboratórios de biologia molecular. Só não fazia parte da rotina de arqueólogos e paleontólogos, cujos objetos de pesquisa são restos humanos ou de animais —ou traços de sua presença— que já não existem mais.

Ferraz se prepara para fazer análises a partir do DNA extraído dos ossos dos povos antigos. A área de estudo, chamada arqueogenética, ganhou projeção internacional após o pesquisador sueco Svante Pääbo ser agraciado com o prêmio Nobel de Medicina ou Fisiologia deste ano por sua pesquisa de sequenciamento genômico dos neandertais.

Embora esse seja um campo em ascensão, as pesquisas antes estavam restritas a países ricos do Hemisfério Norte, com estruturas capacitadas para fazer tais análises. Agora, a USP (Universidade de São Paulo) criou o primeiro laboratório de arqueogenética do Brasil, cuja estrutura será de grande importância para os estudos de povos sul-americanos.

Localizado no Museu de Arqueologia e Etnologia da universidade, o Laaae (Laboratório de Arqueologia e Antropologia Ambiental e Evolutiva), coordenado pelo pesquisador André Strauss, recebeu apoio financeiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) no valor de R$ 2 milhões e conta também com apoio do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha.

A expectativa é que os testes comecem no primeiro semestre de 2023, com a chegada dos reagentes necessários para fazer a extração do material genético. "Há uma questão burocrática de aquisição dos reagentes porque isso vem pela USP, então acredito que até maio, junho do ano que vem já esteja funcionando", afirma Strauss.

Nos últimos 20 anos, a profusão de laboratórios de biologia molecular permitiu que técnicas mais eficientes e com menor custo fossem popularizadas, provocando uma revolução nos estudos de arqueologia e antropologia a partir de análises de DNA.

Foi assim que os cientistas puderam chegar a grandes descobertas, como a constatação de que nós, humanos modernos (Homo sapiens) carregamos uma porcentagem que varia de 3% a 5% do DNA dos neandertais no nosso próprio material genético.

Outra descoberta incrível foi a de uma espécie humana distinta, o homem de Denisova, unicamente conhecido pela sua sequência genética extraída de um fragmento de dedo encontrado na Sibéria, em 2010.

Foi no Max Planck que Päabo desenvolveu suas pesquisas nas últimas décadas. Johannes Krause, que foi aluno de doutorado do pesquisador e agora dirige o instituto, ajudou a treinar Ferraz sobre as técnicas de arqueogenética que desenvolveu no país europeu.

"O projeto tem dois eixos centrais, um que foi construir o laboratório, que nós já fizemos, e o outro é treinar recursos humanos, que é o que o Tiago fez na Alemanha. Então ele é inovador porque vai permitir pela primeira vez que as análises sejam realizadas no Brasil em vez de mandar as amostras para fora", conta Strauss.

O apoio do instituto alemão foi crucial para ajudar na montagem do laboratório paulista. "Fizemos uma adaptação da estrutura do Max Planck no espaço que tínhamos da USP. É mais apertado, mas conseguimos instalar os equipamentos necessários dentro da nossa realidade", relata Strauss, que atualmente recebe uma bolsa de pós-doutorado na instituição para atuar na capacitação de outros estudantes.

Com um campo em crescente mudança como os da arqueologia e da antropologia, o novo espaço pretende atuar em pelo menos quatro linhas de pesquisa distintas: origem dos primeiros americanos, a migração pelo litoral, os povos tradicionais da Amazônia e os do norte do Peru.

Antes de fazer as análises, os materiais são fotografados e reconstruídos em 3D por meio de um equipamento de tomografia computadorizada. Isso porque a extração do DNA de organismos muito antigos, sem a preservação de tecidos moles, é feita a partir da destruição dos ossos, gerando um pó que é depois passado por diversos procedimentos até conseguir obter o material genético.

Os principais fragmentos utilizados nos estudos de arqueogenética são o osso petroso (que forma parte do osso temporal, incluindo o ouvido interno), dentes e, menos frequentemente, ossos longos e do calcâneo (ossinho do tornozelo).

Para Strauss, a possibilidade de começar a fazer as análises já no próximo ano na universidade pode representar um salto para a ciência brasileira. "Nós temos capacidade, o que falta é apoio institucional, recursos humanos. A USP tem a estrutura, o que não podemos é ficar desamparados", relata.

No último dia 1º, os recursos repassados ao Ministério da Educação foram congelados por restrições orçamentárias, bloqueando o repasse da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), uma das principais agências de fomento à pesquisa no país.

Além do bloqueio do pagamento de mais de 200 mil bolsistas, o contingenciamento afetou também institutos e universidades federais do país. O órgão retomou o pagamento alguns dias depois, mas a situação de instabilidade preocupa cientistas em todo o país.

"É um desperdício ter uma pessoa altamente capacitada que não consegue realizar sua pesquisa porque falta estrutura básica no laboratório", lamenta o pesquisador.

"Acho que esse novo centro é uma prova que nós damos conta de implementar de forma quase totalmente autônoma técnicas de análises de biologia molecular de ponta no mundo. Só assim vamos avançar nosso conhecimento sobre a história antiga das populações do continente americano", completa.