Usuários da Cracolândia procuram internação, mas não são atendidos

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)- Na fila para ser encaminhado para o abrigo durante ação policial na praça Princesa Isabel na manhã desta quarta-feira (11), Ronaldo Alves Teixeira, 54, pediu para ser internado.

Viciado em crack há mais de 20 anos, ele conta que mora na rua por causa do vício. "Só paro de usar quando fico internado", disse.

Os assistentes sociais o informaram que poderiam levá-lo apenas para o abrigo e de lá ele deveria pedir a internação.

Ele, então, atravessou a praça e tocou a campainha do Caps (Centros de Atenção Psicossocial) AD, unidade criada justamente para tratar os dependentes químicos que ficam no entorno da Cracolândia. Ninguém atendeu. A reportagem o acompanhou durante a meia hora em que esperou atendimento.

De acordo com funcionários do Caps, a porta ficou fechada porque havia risco dos usuários invadirem o local durante a ação policial.

"Tiraram as minhas coisas, não tenho onde dormir", disse Teixeira enquanto esperava. A porta do Caps Ad abriu às 6h30, duas horas e meia após o início da operação.

Uma vez encaminhado para abrigos, os usuários têm acesso a refeições e estrutura para tomar banho, lavar roupa e passar a noite. Nesses equipamentos, o atendimento é de acolhimento e não têm direcionamento para equipes médicas especializadas em tratar o uso de drogas, como acontece nas unidades do Siat (Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica), por exemplo.

Para ser direcionado para internação, em unidades particulares ou conveniadas do governo estadual, o usuário precisa ser avaliado pelas equipes do Caps, que presta serviço ambulatorial na maioria das vezes. Nesse caso, os dependentes químicos são orientados a comparecer a consultas semanais. Se esse tratamento não for suficiente é, então, pedida uma vaga de internação prolongada. Algumas unidades do Caps têm leitos de internação em que os usuários ficam, em média, 15 dias –período mínimo de desintoxicação de uso abusivo de drogas.

O secretário municipal de Projetos Estratégicos, Alexis Vargas, que estava na praça desde o início da operação, acompanhou a saga por atendimento. Diante da porta fechada do Caps, ele tentou acionar pelo telefone funcionários da Secretaria da Saúde, sem sucesso. Vargas está na prefeitura desde 2018 e assumiu a pasta responsável por coordenar o programa Redenção em janeiro de 2021.

De acordo com o delegado Severino Vasconcelos, do 77º DP (Campos Elísios), os usuários de drogas da praça Princesa Isabel iriam receber atendimento médico caso quisessem.

A operação policial teve início às 4 horas, quando equipes da Polícia Civil, Militar e GCM entraram na praça. Os usuários receberam ordens para ficarem sentados na base da estátua do Duque de Caxias. Conforme eram revistados, os usuários eram direcionados à rua General Rondon, perpendicular à praça, onde estavam as equipes de assistentes sociais.

Não havia equipes da secretaria de Saúde na praça durante a operação policial, apenas assistentes sociais da equipe emergencial do programa Baixas Temperaturas, que abordam moradores de rua durante o outono e inverno.

Entre as usuárias que procuraram abrigo estava Simone Soares de Moura Aguiar, 25. Ela reclamava de cólicas e abriu o casaco para mostrar a barriga saliente de grávida. "Está grande mesmo?", perguntou sem saber quantos meses de gestação e nem quem é o pai.

Usuário de crack desde os 19 anos, Jonathan Nunes Alves de Almeida, 34, aguardava para entrar na van da assistência social que o levaria para o abrigo. "Queria me internar. Essa vida não é para ninguém."

Sem a certeza de que conseguiria a internação, Teixeira entrou resignado na van e perguntou se poderia descansar. Eram 6 horas e a maioria dos abrigos tem a regra de desocupar as camas às 7 horas da manhã.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que uma uma triagem é feita com os usuários que aceitam ir para abrigo para serem encaminhados aos equipamentos adequados com cada situação. Na madrugada, porém, a reportagem acompanhou a abordagem dos assistentes sociais, que davam duas opções de destino aos usuários: o complexo Boracea e o abrigo emergencial Maria Maluf, na Mooca. Cerca de 50 pessoas aceitaram ir para esses locais.

Sobre o atendimento no Caps, a Secretaria da Saúde afirmou que os funcionários são orientados a fechar as portas em ações policiais para "garantir a segurança de funcionários e pacientes". A pasta também reiterou que o serviço funcionou durante toda a madrugada, mas ninguém atendeu a porta quando a reportagem tocou a campainha. A secretaria não comentou o fato de os agentes de saúde só terem chegado na praça de manhã, mais de três horas depois do início da operação.

A prefeitura diz ainda que realizou 146 atendimentos de assistência social até o fim da manhã. De acordo com a pasta, nem todos os casos de atendimento são direcionados para os Siats. Nos Caps da região, 17 dependentes químicos foram atendidos, segundo a gestão municipal.

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