Vídeo de alunos de MG surpreende e comove ao mostrar como o aprendizado mudou a visão deles sobre a África

Aos 25 anos, Lavínia Rocha, professora de História e escritora, tenta ensinar de um jeito diferente daquele tido como tradicional. Não à toa, um vídeo gravado numa escola particular de Minas Gerais e protagonizado por ela viralizou, nesta segunda-feira, nas redes sociais. Nele, ela propõe um antes e depois dos estudantes após eles terem aprendido um pouco mais sobre a cultura e herança africanas. Num primeiro momento, ao serem perguntados sobre o que pensam quando ouvem a palavra "África", os pequenos do 5º ano dão respostas associadas à pobreza, como pessoas escravizadas, magras, negras e doentes. Uma semana depois, o discurso muda para uma África de agricultura, rica em sal e ouro e símbolo de "resistência e cultura", da ancestralidade, de iorubás e da capoeria. Não falta nem menção a Mané, jogador senegalês de futebol e ponta-esquerda do Bayern de Munique, na Europa.

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Identificada como uma mulher negra, Lavínia não esconde o orgulho pelos avanços da turma do 5° ano. Ela se formou em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2020, trabalhou como professora substituta em escolas públicas, mas começou a lecionar oficialmente no início deste ano. Com matrícula em duas escolas particulares de Belo Horizonte, Lavínia é escritora e tem 13 livros publicados, alguns, inclusive, são utilizados em sala. Atualmente, é finalista do Prêmio Perestroika, que destaca professoras e professores com as iniciativas e práticas mais inovadoras e criativas na educação.

Lavínia acredita no protagonismo dos alunos durante as aulas e, por isso, investe em muitas dinâmicas para aguçar a curiosidade da turma. No vídeo, que já tem mais de 100 mil curtidas no Twitter, a professora, de microfone em punho e com um vestido colorido que traz a imagem de uma negra de "ojá", turbante comum em culturas africanas, pergunta aos alunos coisas que eles pensam quando ela diz "África". Animados, os pequenas ditam uma série de palavras, alguns até justificam algumas delas, como uma aluna que fala "pessoas doentes" e depois explica ter visto em propagandas na televisão. "Sabe por que eu lembrei de pessoas doentes?", diz a menina na gravação, "É porque toda vez que eu vejo Discovery, tem sempre uma propaganda que aparece um monte de criança doente".

O ensino comprometido de Lavínia também se comunica com o tema de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deste ano. A professora reconhece que, hoje, existe maior atenção para com os povos tradicionais brasileiros, como os quilombolas, mas afirma que ainda falta muito para que eles sejam efetivamente respeitados. Para incluir os alunos na discussão que foi tema do vestibular e conscientizá-los, a professora os prepara desde cedo, pedindo que pesquisem em casa sobre países, culturas e religiões de matriz africana, tendo como apoio o material didático recomendado pela escola.

— O início do vídeo já me conquista. Os alunos dizem "pessoas escravizadas" ao invés de "escravos". Por mais que a imagem ainda seja negativa, faz toda diferença essa transformação nos termos porque "escravo" carrega um sentido de passividade, como se aquela condição fosse natural. "Escravizado" é um termo político, mostra que alguém forçou aquela situação, tornou uma pessoa livre um escravo. O mesmo se repete entre "índios" e "indígenas"— explica Lavínia.

Segundo ela, um dos pontos que pode justificar a repercussão do vídeo é a identificação das pessoas pessoas com as falas das crianças na primeira parte, que se mostram carregadas do senso comum. E também com o quanto essas percepções podem mudar graças à força da educação.

— O que mais pesa no vídeo é que muitas pessoas se reconhecem nas respostas iniciais, acham que a África só se resume àquelas palavras, mas depois percebem que a educação funciona, que existe muito mais. Se ficar na cabeça das crianças a base, se a mudança na forma com que elas enxergam o outro permanecer, a subjetividade se solidificar e elas forem levando o que aprenderam em sala para a vida, então, meu trabalho terá dado certo, terá valido a pena — reforça a professora com uma frase que faz lembrar trecho da autobiografia de Martin Luther King: "Se puder ajudar alguém com minha passagem, se puder estimular alguém com uma palavra [...], então minha vida não terá sido em vão".

Durante as aulas, a professora usa roupas e objetos que fazem referência à ancestralidade africana, como, por exemplo, o uso de brincos em formato de pente garfo, uma "escova" específica para cabelos crespos.

— Quando eu digo que sou uma mulher negra, essa afirmação faz com que muitos alunos se identifiquem com a minha cor e também se afirmem como negros. Eu faço questão de usar vestidos, brincos, roupas que fazem referência às raízes africanas. Isso faz com que os alunos consigam me localizar visual e racialmente, e minha identidade passa a ser política.

Outro ponto que Lavínia chama atenção diz respeito à Lei nº 10.639, vigente desde 2003 e que tornou obrigatória nos currículos do ensino fundamental e médio a temática afro-brasileira, como a história da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional. Contudo, como reconhece Lavínia, nem todos as instituições e professores estão habilitados para esse ensino.

— Mesmo sendo obrigatória a lei de ensino de cultura e heranças africanas, poucas são as escolas que o oferece. Eu mesma na universidade só tive um período de História da África, enquanto o conteúdo sobre a Europa se alongava por todo o curso. Precisei estudar por fora, me atualizar para estar mais preparada. É importante investir mais no ensino da ancestralidade negra e, principalmente, que professores brancos também tenham interesse nesse assunto.