Vídeo de ginasta de 12 anos treinando em laje no Morro do Borel comove a web: 'Vou chegar lá', diz ela

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RIO - O vídeo é curto, de pouco menos de um minuto. Posicionado em um ângulo um pouco mais acima, um homem filma uma jovem ensaiar movimentos de ginástica artística sobre uma laje no Morro do Borel, na Tijuca, na Zona Norte do Rio. Em meio a caixas d'águas, entulho e blocos de madeira, a pequena Ana Luisa Batista dos Anjos transforma um pilar de metal em trave, pela qual desfila com desenvoltura. A imagem, gravada na primeira segunda-feira do ano, primeirou correu a favela, onde a menina logo passou a ser reconhecida e parabenizada. Não tardou, porém, para que o registro ganhasse a internet, gerando uma chuva de elogios e emoção.

Quem vê a habilidade de Ana Luisa não imagina que o treinos em ginástica artística começaram há pouco tempo, já no segundo semestre do ano passado — ainda aos 11 anos, já que ela faz aniversário em dezembro, faixa etária na qual a maior parte das atletas da modalidade já tem ampla bagagem. Mesmo com a pouca experiência, ela conseguiu entrar para o Fluminense e, em uma das primeiras competições que disputou, venceu na trave e foi terceiro lugar no solo, com apenas três meses de prática. O bom desempenho, porém, não evitou que ela acabasse dispensada na ida para as férias, justamente sob o argumento da idade elevada.

— Ela treinou ginástica rítimica dos 9 até os 11 anos, mas sempre quis passar para a ginástica artística, era o sonho dela. Só que parecia algo muito além das nossas possibilidades, pra gente que vem de comunidade, não tem conhecimento em clube grande, e tudo mais. Mas chegou um momento em que, de tanto ela insistir, resolvemos tentar — conta Cristiane Batista Albino da Silva, de 32 anos, mãe da menina, lembrando que a saída do Fluminense fez com que as duas "chorassem muito":

— Antes do Fluminense, ela não foi aprovada em um teste no Flamengo, também por causa da questão da idade. Depois daquela competição, passamos rapidamente de uma alegria muito grande, de um "agora deu certo", para mais uma frustração. E a gente que é mãe vive os sonhos dos nossos filhos. Eu disse pra ela: ainda não foi aqui, mas não vamos desistir.

Não demorou para que Ana Luisa virasse a chave e recuperasse o foco. Quando foi filmada por um vizinho que, até o pedido para divulgar as imagens, só conhecia a família de vista, ela estava treinando com afinco, sob o sol escaldante, para um teste que faria no dia seguinte no Studio Espaco Físico, o SEF-Ginástica, em Vila Valqueire, na Zona Oeste da cidade. Um professor que havia trabalhado com ela no Fluminense recomendou a jovem para o novo local de atuação.

— Ele me ligou e falou que ela havia sido desligada, mas que tinha muita determinação. E que, na opinião dela, valia a pena tentar. Nós vimos que ela até está, sim, um poucoatrás de outras meninas da mesma idade, que começaram muito antes. Mas ela tem uma linha corporal muito boa, e um olho que brilha demais quando está performando. Foi isso que nos conquistou. Agora, é trabalhar a técnica — explica Paola Drummond, de 35 anos, coordenadora da equipe de técnicos do SEF: — Ela me perguntou se eu achava que ela conseguiria. Respondi que depende mais dela do que da gente. Mas nós estaremos juntos, dando todo o suporte.

Se depender mesmo só de Ana, e também do esforço conjunto da família, o sucesso já pode ser dado como garantido. Todos os dias, de segunda a sexta-feira, ela e a mãe pegam três ônibus para que a jovem cheguem ao local do treino, onde a ginasta pratica por pelo menos três horas. Às vezes, sem ter com quem deixar o caçula, Cristiane também leva a tiracolo o filho mais novo, de 3 anos. Enquanto isso, o pai, que também é todo apoio ao sonho da filha, trabalha como ferreiro para pagar as contas da casa. Uma rotina que inclui ainda competições aos fins de semana e ficará ainda mais puxada em breve, quando voltarem as aulas na escola municipal em que Ana vai cursar o Sétimo Ano no período da manhã.

— Meu maior sonho é ser campeã brasileira e viajar o mundo todo, trazendo muitas medalhas. E disputar uma olimpíada, claro — revela a promessa do esporte, dizendo se inspirar especialmente em Daniele Hypólito e Jade Barbosa: — Mas ainda estou no meu começo, sei disso. E ninguém pode me dizer que não vai dar certo. Aprendi que quando uma porta se fecha, outras mil se abrem. Eu vou chegar lá.

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