Vídeo mostra como quadrilha do 'golpe do nude' intimidava e extorquia vítimas com falsos mandados de prisão

Um vídeo enviado a uma das vítimas do chamado "golpe do falso nude", e obtido pela Polícia Civil do Distrito Federal no âmbito do inquérito sobre a atuação da quadrilha, ajuda a mostrar como os criminosos agiam durante uma das etapas da extorsão. Todo o processo é baseado em mentiras. Fingindo ser um delegado de polícia, o golpista exibe à vítima um falso mandado de prisão contra ela por pedofilia para intimidá-la, ameaçá-la e, assim, conseguir exigir mais dinheiro. Os investigadores estimam que a quadrilha, com base no Rio Grande do Sul, tenha extorquido mais de R$ 5 milhões em três meses. Só um homem, no DF, perdeu R$ 1 milhão. Nesta quarta-feira (16), quatro membros da organização criminosa foram presos: três homens e uma mulher. Outras três pessoas, que seriam laranjas do grupo, ainda são procuradas.

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O cenário é convincente: um laptop, sobre uma mesa branca, e um papel de parede ao fundo, ambos com logomarcas da Polícia Civil. O golpista, com sotaque gaúcho, reclama porque a vítima, identificada por ele como Carlos, não estaria atendendo mais as ligações.

Falso policial: "Eu estou te ligando e tu não tá me atendendo, tá? (sic) Eu estou com o telefone do Dr. Walter, ele está internado, com Covid, no hospital, e eu estou tomando conta dos processos dele. Eu estou com um papel aqui para o senhor, uma prisão preventiva, e se o senhor me atender a gente pode conversar. Senão, eu vou ter que assinar ela aqui. Só estou esperando você me atender na (inaudível) para a gente conversar e se acertar certinho".

O delegado Diogo Cavalcante, da 16ªDP, de Planaltina (DF), explicou como a quadrilha praticava as extorsões.

— O criminoso agia por meio das redes sociais. Eles escolhiam suas vítimas e simulavam entrar em contato se passando por uma mulher. Posteriormente, essa mulher mandava uma nude (foto nua) e mesmo que fosse encerrada essa conversa, um falso pai dessa mulher ligava dizendo que ela tinha 13 anos e que isso seria um crime de pedofilia — relatou. — Essa pessoa falava que conhecia policiais e passava a extorquir dinheiro das vítimas, pedindo para que elas depositassem dinheiro e teoricamente se livrassem do problema. Posteriormente, ligavam para ela esses falsos policiais, e criaram até uma falsa unidade policial, onde estes falsários mostrava armas, algemas, símbolos da policia, para dar credibilidade ao roubo, e exigiam grandes quantias para que essas vítimas não fossem presas. Inclusive simulavam mandados de prisão com os dados dessa vítima e encaminhavam para que a vítima fosse obrigada a pagar.

Tratamento psiquiátrico, sepultamento e mandados de prisão falsos

O golpe é aplicado sempre da mesma maneira e envolve mentiras cruéis. Uma mulher — através de um perfil falso — procura pela vítima nas redes sociais e convida para trocar mensagens. O homem é seduzido pelo assunto e, durante a conversa, ela envia uma foto nua. Logo em seguida, um falso pai entra em contato com a vítima, dizendo que a filha dele tem apenas 13 anos e exige altos valores em dinheiro para não levar o caso à polícia. Depois, o "pai", então, passa a extorquir de várias outras formas.

Primeiro, os golpistas exigem o pagamento de um falso tratamento psiquiátrico para a criança, que sequer existe. Depois, eles vão ainda além: inventam que a menina cometeu suicídio, apresentando uma certidão de óbito falsa, e demandam o pagamento de um falso sepultamento. E não param por aí. Em seguida, exigem ainda uma nova quantia em dinheiro para celebração de um acordo pelos danos morais e materiais causados. Após este pagamento, fingem estar em uma delegacia, onde passam a ameaçar e mais uma vez extorquir a vítima, dizendo ter provas para prendê-lo por pedofilia.

Os investigadores descobriram, ainda, que mesmo após o pagamento de todas as formas de extorsão do golpe, a quadrilha ainda colocava um falso chefe de polícia para entrar em contato com as vítimas, exigindo novos pagamentos – etapa onde estava o homem que, há 1 ano, deu início a toda a investigação. Só ele, uma única vítima, teve R$ 1 milhão extorquido pelos bandidos.

– Aqui no Distrito Federal, essa investigação começou há 1 ano, quando uma vítima nos procurou e disse que já havia feito 19 transferências, que totalizavam um prejuízo de R$ 1 milhão – disse Cavalcante.

A tendência, diz o delegado, é de que outras extorsões sejam descobertas, já que o inquérito será compartilhado com delegacias de outros estados pelo Brasil.

– Esse grupo tinha base no Rio Grande do Sul, mas atuava fazendo vítimas por todo País. As provas serão compartilharas com outras polícias judiciárias para que os criminosos possam responder por todos os crimes cometidos – acrescentou Cavalcante.