Vídeo: Pastor e professor indígenas reúnem fiéis sem máscara em culto no Amazonas. 'Não existe mais coronavírus, gente. Nós vencemos'

Daniel Biasetto
·4 minuto de leitura
Culto evangélico na Igreja Mundial do Poder de Deus, na Terra Indígena Tikuna Feijoal, no Amazonas, em homenagem aos Dia das Mães. Fiéis não usam máscara e desrespeitam decreto da prefeitura de Benjamin Constant
Culto evangélico na Igreja Mundial do Poder de Deus, na Terra Indígena Tikuna Feijoal, no Amazonas, em homenagem aos Dia das Mães. Fiéis não usam máscara e desrespeitam decreto da prefeitura de Benjamin Constant

RIO - Um culto religioso na Terra Indígena Tikuna Feijoal reuniu mais de 40 pessoas para a comemoração do Dia das Mães neste domingo e resolveu ignorar o decreto da prefeitura de Benjamin Constant, no interior do Amazonas, que proíbe os índios de deixarem suas aldeias. Nenhum dos fiéis da Igreja Mundial do Poder de Deus usava máscara, mas eram tranquilizados pelo professor de seus filhos, irmão do pastor, que os avisava para não temer a nada, pois o coronavírus havia sido vencido pelo poder de Deus. "Brasil não tem mais pandemia de coronavírus. Nós vencemos. Pandemia? Acabou!", diz no áudio obtido pelo EXTRA.

Em um vídeo postado nas redes sociais, é possível ver a presença de idosos e crianças na cerimônia, todos sem proteção.

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O líder da igreja é o pastor Davi Felix Cecílio, monitor bilingue da Fundação Nacional do Índio (Funai). Ele estava no púlpito conduzindo o encontro. Procurada, a Funai ainda não se manifestou sobre o vídeo e nem sobre o áudio. O servidor não atendeu às ligações e nem respondeu mensagens enviadas para o seu telefone.

- Nós não precisamos ter medo do que acontece no Brasil. Estou muito feliz e agradecendo a Deus porque a pandemia de coronavírus não tem mais. Nós vencemos. Jesus em primeiro lugar. Deus profetizou dizendo que o Brasil não vai mais ser atingido pelo coronavírus. Nós não temos medo dessa doença. Não existe mais coronavírus, gente. Pandemia? Acabou! Não tem. É a vitória é do nosso senhor salvador Jesus Cristo - afirma no áudio o irmão do pastor, Beto Fernandes Torres, que é professor da escola estadual indígena Cacique Manuel Florentino Mecüracü.

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Com 100 de 222 casos confirmados de coronavírus entre indígenas, a microrregião do Alto Solimões é considerada um foco da doença, onde já morreu 10 nativos, mais da metade de todos os óbitos registrados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Nessa comunidade do Feijoal, onde aconteceu o culto, já foram registradas quatro mortes.

O professor tikuna ainda incentiva os fiéis a orarem pelo mundo e agradecer uma vez que já estão protegidos da doença.

- Não é para ter medo. Essa doença é de Deus, essa doença é dele. Deus colocou mais doença na China, nos países de primeiro lugar, que não acreditava em Deus. Essa é a vitória que Deus está dando para nós.

O coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei Alto Solimões), Weydson Gossel Pereira, não quis comentar o caso. A Sesai ainda não se manifestou.

O Dsei de Alto Solimões é disparado o distrito com o maior número de casos (100) e também o de óbitos (10), em sua maioria indígenas kokama e tikuna. Logo depois estão Manaus (29), Parintins (20), Ceará (17) , Yanomami (14) e Leste Roraima (9).

Neste sábado, mais um adolescente indígena morreu vítima de coronavírus, novamente em Roraima. Raquel Raposo da Silva, de 17 anos, faleceu uma semana após procurar ajuda, com febre e dor de cabeça. Ela foi transferida no dia 4 de maio para o Pronto Socorro Cosme e Silva, em Boa Vista, recebeu alta no mesmo dia e seguiu para Casa de Saúde indígena (Casai), mas voltou a passar mal e teve o diagnosticado da Covid-19 confirmado. Ela chegou a ser internada às pressas no Hospital Geral de Roraima, onde teve piora de seu quadro respiratório e não resistiu.

Esta é a segunda vez que um adolescente indígena morre em decorrência de coronavírus desde que fora registrado o primeiro caso entre esses povos, há 40 dias. O primeiro foi o ianomâmi Alvanei Xrixana , de 15 anos. Ele também morreu no Hospital Geral de Roraima.

No total, o número de índios contaminados pela Covid-19 no Brasil chegou a 222, média de cinco casos por dia. O estado do Amazonas concentra 70% dos registros da doença. A Sesai diz 91 indígenas estão sob a suspeita e 128 já tiveram cura clínica.

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