Vídeo de reunião citada por Moro provoca guerra de versões entre auxiliares de Bolsonaro

JULIA CHAIB
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BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A determinação do ministro Celso de Mello, do STF (Supremo Tribunal Federal), para o Planalto entregar a gravação em vídeo de uma reunião de ministros do dia 22 de abril, citada por Sergio Moro em depoimento à Polícia Federal, provocou uma guerra de versões de auxiliares de Jair Bolsonaro sobre quem teria manuseado o material e a extensão dele. Aliados do presidente divergem sobre quem esteve com o cartão de memórias da gravação, mas já afirmam que o vídeo não captou o encontro por inteiro e que deverá ser entregue uma versão curta da reunião ao Supremo. À PF Moro afirmou que, no encontro em questão, Bolsonaro pediu a substituição do diretor-geral da PF, do superintendente da corporação no Rio, solicitou acesso a relatório de inteligência e ameaçou demiti-lo caso ele não cedesse. O chefe da assessoria especial da Presidência da República, Célio Faria Júnior, nega que esteja com o vídeo e afirmou, em nota enviada à reportagem, que não compete à sua área "o registro de imagens de reuniões, tampouco o arquivo de eventuais registros". "As reuniões realizadas na Presidência da República são eventualmente gravadas pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom), com a única finalidade de divulgar as imagens da agenda presidencial, na sua maioria registros curtos e pontuais", afirmou. Nesta terça (5), o site O Antagonista citou Faria como o auxiliar de Bolsonaro que teria ficado com o cartão de memória da gravação e o formatado. Segundo a publicação, o assessor devolveu o material a outros integrantes do Planalto apenas nesta terça e sem conteúdo. Nesta quarta (6), Faria negou que esteja com o material: "Não tenho qualquer vídeo". Outros auxiliares de Bolsonaro, porém, dizem que na semana passada o assessor pediu, sim, acesso ao vídeo. E, apesar de Faria ter dito que as reuniões são eventualmente gravadas pela Secom, aliados do presidente dizem que Fábio Wajngarten, que chefia o órgão, não está com a gravação. O registro da reunião teria sido feito pela EBC (Empresa Brasil de Comunicação), que, segundo integrantes do Planalto, grava imagens para serem utilizadas institucionalmente. No caso específico da reunião do dia 22, pessoas ligadas a Bolsonaro dizem que o encontro não foi gravado do início ao fim. Procurada oficialmente para comentar o assunto, a Secretaria de Comunicação respondeu que "o Planalto não comentará" o tema. Nesta terça (5), o ministro Celso de Mello, que relata o inquérito que apura as acusações de Moro contra Bolsonaro no STF, deu 72 horas para que o vídeo da reunião seja entregue à corte. Na semana passada, Bolsonaro chegou a dizer que divulgaria o vídeo da última reunião ministerial da qual participou Moro. Segundo o presidente, ele teria cobrado o ministro sobre as prisões de pessoas que desrespeitam a quarentena. Na mesma semana, porém, Bolsonaro recuou e disse que foi aconselhado a não divulgar o material. O ministro do STF fez a solicitação a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras. O chefe do MPF pediu ainda os depoimentos dos ministros Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno Ribeiro Pereira (Gabinete de Segurança Institucional da Presidência) e Walter Souza Braga Netto (Casa Civil) para o esclarecimento dos fatos. Além deles, serão ouvidos a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) e os delegados Maurício Valeixo, Ricardo Saadi, Carlos Henrique de Oliveira Sousa e Alexandre Saraiva e Rodrigo Teixeira. Em depoimento à Polícia Federal no último sábado (2), Moro afirmou que o presidente Jair Bolsonaro pediu a ele no começo de março deste ano a troca do chefe da Polícia Federal no Rio de Janeiro. "Moro você tem 27 Superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro", disse Bolsonaro a Moro, por mensagem de WhatsApp, segundo transcrição do depoimento do ex-ministro à PF no inquérito que tramita no STF (Supremo Tribunal Federal). A íntegra do depoimento foi divulgada pela CNN Brasil. Nesta terça-feira (5), Bolsonaro confirmou a troca no comando da PF no Rio, revelada pelo Painel. A mudança foi definida no mesmo dia da posse do novo diretor-geral da corporação, Rolando de Souza. Carlos Henrique Oliveira, atual chefe da PF no estado, deixará o cargo para ser o diretor-executivo da polícia, número dois na hierarquia do órgão. Rolando definiu na noite desta terça-feira (5) o delegado Tácio Muzzi como novo superintendente do Rio de Janeiro. O nome do policial não estava entre indicados de Jair Bolsonaro. Houve pressão interna para que o nome do novo superintendente não tivesse ligação com a família do presidente e que fosse de um delegado respeitado internamente, na tentativa de afastar suspeitas. A escolha teve o aval do antecessor. O ex-ministro afirmou que o presidente o cobrou em reunião do conselho de ministros, ocorrida em 22 de abril, a substituição da Superintendência do Rio e do diretor-geral da PF. Bolsonaro ainda teria voltado a pedir relatórios de inteligência e informação da Polícia Federal. "O presidente lhe relatou verbalmente no Palácio do Planalto que precisava de pessoas de sua confiança, para que pudesse interagir, telefonar e obter relatórios de inteligência", disse Moro no depoimento. Bolsonaro convocou a reunião ministerial para discutir, oficialmente, o programa Pró-Brasil. O governo, também por decisão do ministro do STF, terá que fornecer comprovantes de autoria e integridade das assinaturas digitais da exoneração de Maurício Valeixo do cargo de diretor-geral. Moro negou que tenha assinada a demissão de Valeixo como inicialmente foi publicada pelo governo no Diário Oficial. O decreto foi retificado após o ex-ministro apontar a irregularidade.