Vítima de abuso sexual descreve em julgamento no Vaticano agressões sofridas

·2 minuto de leitura
Esta é a primeira vez que uma vítima expõe aos juízes do Vaticano os abusos sexuais sofridos quando adolescente e cometidos por um colega

Um jovem descreveu nesta quarta-feira em um tribunal do Vaticano, pela primeira vez, os abusos sexuais de que foi vítima quando menor de idade em um pré-seminário dentro do Vaticano, e denunciou o silêncio imposto pela hierarquia.

Esta é a primeira vez que uma vítima expõe aos juízes do Vaticano os abusos sexuais sofridos quando adolescente e cometidos por um colega, então seminarista e hoje padre. O jovem, 27, ilustrou por mais de três horas os episódios vividos, que se repetiam "até duas ou três vezes por semana".

Identificado pelas iniciais L.G., o jovem, que tinha 13 anos quando os fatos começaram, prolongando-se por seis anos, frequentava o pré-seminário São Pio X. Ele acusou Gabriele Martinelli, um ano mais velho, ordenado padre em 2017, de agressões sexuais repetidas.

"Ele invadia minha cama à noite", contou aos juízes. "Para mim, era muito estranho. Eu era pequeno e nunca havia tido experiências sexuais. Nem em casa, nem na minha cidade, haviam me falado sobre sexo. Senti uma certa confusão, mas não sabia muito bem o que estava acontecendo." Segundo a vítima, os outros dois jovens com quem dividia o quarto "dormiam ou fingiam dormir", enquanto Martinelli lhe exigia que praticasse sexo oral e anal.

L.G. relatou que, em 2009, falou sobre o assunto com o padre Enrico Radice, ex-reitor do pré-seminário e processado no mesmo julgamento por proteger Martinelli. A vítima reconheceu que não foi muito clara em suas confissões a Radice e que não denunciou explicitamente os abusos.

Os advogados de defesa apresentaram mensagens trocadas pelos dois jovens após deixarem o pré-seminário, entre elas um desejo de feliz aniversário no Facebook e uma longa mensagem da vítima ao abusador supostamente acusando o mesmo de ter ciúmes da amizade de L.G. com outro coroinha.

O bispo de Como, Oscar Cantoni, a quem Martinelli responde atualmente, confirmou na audiência passada que, entre setembro de 2006 e junho de 2012, foram recebidos relatórios sobre o padre e sua "conduta sexualmente imprópria", mas ele disse que nos anos em questão "não era clérigo" e que "não existe uma norma para esses casos". Martinelli deveria indenizar a vítima com 20 mil euros, segundo solicitado oficialmente.

O padre, que trabalha atualmente em um centro para idosos no norte da Itália, já foi interrogado pelo tribunal, diante do qual afirmou que as acusações não têm fundamento.

O Papa Francisco comprometeu-se a lutar contra os abusos sexuais cometidos por membros da Igreja Católica. Em outubro passado, a Justiça do Vaticano decidiu abrir um julgamento contra o padre, após a publicação de um livro em que o jornalista italiano Gianluigi Nuzzi denuncia os abusos cometidos no pré-seminário entre 2011 e 2012.

bur-kv/mb/lb