Vítimas do coronavírus na Zona Oeste do Rio são mais jovens

Rafael Galdo
1 / 3

88040733_RI---Rio-de-Janeiro-RJ-04-05-2020----Calcadao-de-Bangu---Prefeito-M

Na segunda-feira à noite, havia algum movimento no calçadão de Bangu

Em bairros da Zona Oeste do Rio — para onde a Covid-19 avança, mas onde a adesão ao isolamento social enfrenta resistência —, o novo coronavírus adoece e mata pessoas mais jovens que na média da cidade, revela o detalhamento do painel da prefeitura sobre a pandemia. Nos dados compilados até anteontem, na área administrativa (AP) 5.2, que inclui Campo Grande e adjacências, a média de idade dos infectados era a menor do Rio, de 47,7 anos. No município como um todo, era de 49,8 anos, chegando a 54,1 anos na AP 2.2, da Grande Tijuca.

Já em relação às mortes, a região de Santa Cruz, Paciência e Sepetiba (AP 5.3) era a única do Rio em que a maioria das vítimas não era idosa. Nesses bairros, as pessoas com 60 anos ou mais representavam cerca de 36% dos mortos, contra um percentual de 69,7% na cidade. Para se ter ideia da diferença, na Zona Sul, por exemplo, esse índice era 81,3%. Para infectologistas, uma série de fatores pode estar por trás desse perfil dos acometidos pela doença na Zona Oeste: da idade da população local às dificuldades do distanciamento social.

Nesse compasso, o município registrava ontem 7.283 casos confirmados, com 670 óbitos pela Covid-19, com os populosos bairros da Zona Oeste entre os mais afetados. Com 36 mortos, Bangu se tornou ontem o segundo bairro com mais vítimas fatais na cidade, apenas um a menos que Copacabana, que lidera esse triste ranking. Campo Grande vem logo atrás: é o terceiro em número óbitos (34). E tampouco há boas notícias para os moradores de Realengo, com 27 mortos, e Santa Cruz, onde a epidemia já matou 24 pessoas. Na AP 5.3, onde fica esse último bairro, eram 40 mortos, entre os quais 24 tinham entre 20 e 59 anos.

Na região, adultos nessa faixa etária também são mais numerosos, proporcionalmente em comparação com a cidade, quando se trata do total de diagnosticados com o coronavírus. Anteontem, eles batiam os 78% dos casos na área administrativa de Campo Grande e 77% na de Santa Cruz. Apenas na AP 5.1 (Bangu, Realengo e vizinhança), esse percentual era mais baixo, de 69,2%.

 

Aglomeração preocupa

Enquanto a cresce a preocupação com as consequências da doença na Zona Oeste, as cenas de aglomeração continuam se repetindo. Ontem, em Campo Grande, as filas em frente a agências da Caixa Econômica, de pessoas em busca do auxílio de R$ 600 do governo federal, reuniam centenas de pessoas. No fim de semana, segundo dados do Centro de Operações (COR) da prefeitura, em conjunto com a operadora de telefonia TIM, bairros da região ficaram entre os que registraram maiores picos de pessoas nas ruas.

No sábado, Santa Cruz teve a quinta aglomeração mais intensa da cidade, com 4,3 mil pessoas circulando num mesmo horário. Já anteontem, foi a vez de Santíssimo aparecer nessa lista: teve a quarta maior quantidade de gente aglomerada, 3,4 mil pessoas.

No próprio domingo, o prefeito Marcelo Crivella chegou a cogitar o fechamento de vias importantes da região, como os calçadões de Bangu e Campo Grande. Ao menos por enquanto, o município informa que a medida será a utilização de 300 câmeras do COR e a parceria com a TIM para identificar os os locais de aglomeração, principalmente na Zona Oeste. A partir dessas informações, as equipes do Disk Aglomeração serão enviadas a esses pontos para recomendar o distanciamento social e o uso de máscaras.

A boa nova é que, em algumas áreas, as aglomerações do último fim de semana foram um pouco menores. Ainda não é o ideal, mas Campo Grande, que no domingo retrasado chegou a somar 16,2 mil pessoas nas ruas num único horário, há dois dias aglomerou, no máximo, 3,11 mil.

Especialistas apontam explicações

Especialistas apontam que, além do isolamento social menos eficaz, outras características da Zona Oeste podem estar fazendo com que, nesses bairros, cariocas mais jovens estejam sendo atingidos pela Covid-19. O infectologista Edimilson Migowski, da UFRJ, ressalta que, em áreas com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais baixo e menor expectativa de vida, são mais comuns comorbidades que são fatores de risco do coronavírus.

— Isso vale não só para a Covid-19 — afirma Migowski. — Além disso, para muitos na Zona Oeste, o acesso aos serviços de saúde e à orientação médica é mais difícil do que na Zona Sul, por exemplo — acrescenta.

O infectologista lembra ainda que os mais jovens costumam ser os que mais se expõem a aglomerações, algumas vezes em atividades informais, como festas não autorizadas.

Outro infectologista, Paulo Santos, conselheiro da Sociedade Brasileira de Infectologia, lembra que muitos desses adultos são aqueles que, por alguma circunstância, não podem permanecer em casa.

— São trabalhadores, por exemplo, de serviços essenciais, que precisam continuar circulando — diz ele.

Outra hipótese levantada por Santos é uma possível subnotificação mais elevada na Zona Oeste, o que alteraria os dados sobre a região. Assim como a própria estrutura etária da população desses bairros, onde há menos idosos do que em áreas como Copacabana ou Tijuca, por exemplo .

Dados do último censo do IBGE, de 2010, já confirmavam uma população mais rejuvenescida na Zona Oeste. Excluindo a Barra da Tijuca e adjacências, era a região da cidade com menor proporção de idosos em relação ao restante dos moradores. As pessoas com 60 anos ou mais eram 11,6% dos habitantes, contra a média de 14,88% na cidade, alcançando 22,71% na Zona Sul e Grande Tijuca.

Na outra ponta, crianças, adolescentes e jovens, de 0 a 19 , eram 30,89% dos moradores da Zona Oeste, contra apenas 18,68% nos bairros da Zona Sul e da Grande Tijuca.