Vítimas dos atentados de Paris enfrentam o desafio de descrever o terror que viveram

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Policiais guardam o Palácio da Justiça de Paris em 8 de setembro de 2021 (AFP/Alain Jocard)

Tentar explicar em palavras o horror que viveram em 13 de novembro de 2015 e suas vidas despedaçadas será o desafio das vítimas dos ataques terroristas de Paris, que começarão a testemunhar por cinco semanas na terça-feira (28).

"Eu quero fazer isso, é parte do meu trabalho de reconstrução", explica Marko, de 31 anos. "Quero confrontar essas pessoas, deixá-los ver quem são as vítimas. O que aconteceu conosco e com aqueles que não estão mais aqui".

No dia 13 de novembro de 2015 ele estava no bar La Belle Équipe com um grupo de amigos. Um deles, Victor, está entre as 130 pessoas que morreram naquela noite em restaurantes, na casa de espetáculos Bataclan e no Stade de France.

Como Marko, cerca de 300 sobreviventes dos ataques ou parentes das vítimas se sucederão no imenso tribunal construído especialmente para o julgamento dos piores ataques em Paris desde a Segunda Guerra Mundial.

O presidente do tribunal que julga 20 acusados, seis à revelia, alertou sobre sua intenção de ouvir cerca de 15 testemunhas por dia, tarefa que se proclama difícil para as vítimas, que estarão sozinhas em frente aos magistrados e réus.

"Estou completamente apavorada", reconhece Edith Seurat, de 43 anos. A princípio não queria explicar o que viveu no Bataclan. "Disse a mim mesma que falaria acima de tudo sobre o depois, sobre a reconstrução ou, melhor, sobre a não reconstrução".

Mas comparecendo ao julgamento - o primeiro de sua vida - percebeu a solenidade da audiência e ouviu os relatos dos investigadores, "todos diferentes". "Talvez eu tenha subestimado a importância de um testemunho e talvez me concentre mais no que pude ver e ouvir".

Gérard Chemla representa quase 130 vítimas, incluindo 15 que decidiram comparecer. Com eles trabalha os "principais freios à expressão": a "culpa dos sobreviventes", o medo de "não ter nada de especial para dizer" de ser "banal" ou "desabar".

"Ter emoções, que às vezes tomam conta de você, chorar publicamente, não é uma humilhação", disse o advogado.

Para a advogada Héléna Christidis, "eles são livres para falar o que quiserem e cada um vai levar o tempo que precisar".

Às vezes, "será difícil começar, levará um minuto ou mais. E alguns podem recuar no último minuto".

Seus clientes querem explicar os eventos, as consequências e a "vida sem" para aqueles próximos aos falecidos. "Há um desejo de honrá-los, de trazê-los de volta à vida, durante um julgamento".

- De frente a Abdeslam -

Uma questão que frequentemente surge é se eles poderão se dirigir aos acusados.

As regras estabelecem que as testemunhas têm de ir ao tribunal. Chemla desenhou para seus clientes um esboço da sala, em que o pódio parece mais avançado do que o banco dos réus.

Todos têm em mente Salah Abdeslam, o principal réu e único membro vivo dos comandos que atacaram Paris.

Desde o início do julgamento, este homem de 32 anos não hesitou em tomar a palavra. Na semana passada, ele disse ao tribunal que os ataques eram "inevitáveis", mas pediu um "diálogo" para prevenir outros.

Marko estava na sala, fora de si: "Levantei-me e comecei a insultá-lo. Uma amiga ferida me acalmou, mas fiquei de pé até o fim, olhando para ele".

As vítimas estão divididas entre explicar a Abdeslam sua "raiva", como Marie, uma sobrevivente do Bataclan de 37 anos, ou "medo", como alguns dos clientes de Chemla, de serem reconhecidas.

Edith Seurat não se preocupa com os réus. Pensa nos pais, naqueles que perderam o companheiro, "aqueles que tentam reconstruir uma história, um lugar onde não estavam". "Por eles, terei cuidado".

O julgamento dos ataques em Paris começou em 8 de setembro e deve durar até o final de maio. Os réus começarão a testemunhar a partir de 2022.

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