Vítimas de escravidão moderna chegam a 50 milhões no mundo, diz ONU

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A escravidão moderna cresceu no mundo nos últimos anos, estimulada por crises como a pandemia, os conflitos armados e as mudanças climáticas, e atingiu 50 milhões de pessoas em 2021, informou a ONU nesta segunda-feira (12). Mulheres, meninas e imigrantes são os grupos mais afetados.

Mais da metade desse total (28 milhões) é de pessoas forçadas a trabalhar contra sua vontade, e o restante (22 milhões), daqueles obrigadas a se casarem, de acordo com o relatório publicado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) junto com a ONG Walk Free Foundation.

Os dois casos se enquadram na definição da OIT de escravidão moderna, pois envolvem pessoas que "não podem recusar ou não podem sair devido a ameaças, violência, engano, abuso de poder ou outras formas de coerção".

A pandemia, que provocou uma deterioração das condições de trabalho e o aumento do endividamento dos trabalhadores, reforçou a máquina da escravidão moderna, e quase uma de cada 150 pessoas no mundo é vítima de alguma exploração desse tipo.

As estimativas são baseadas parcialmente em pesquisas domiciliares, sendo que a última estatística disponível era de 2016. Nesses cinco anos, o número de vítimas aumentou em mais de 9 milhões, na contramão da meta da ONU de erradicar a escravidão até 2030.

Segundo o relatório, mais da metade do trabalho forçado nos últimos anos ocorreu em países de renda média alta ou alta, com migrantes ao menos três vezes mais propensos a serem recrutados para esse tipo de exploração.

A maioria dos casos de trabalho forçado -86%- aconteceu no setor privado, em indústrias e nas áreas de construção, agricultura e trabalho doméstico. Estima-se que milhões de pessoas, principalmente mulheres e meninas, também estejam presas à exploração sexual.

Ainda de acordo com o relatório, a principal forma de coerção usada pelos empregadores é a retenção deliberada de salários e a ameaça de demissão

"Acho que, em geral, simplesmente relaxamos nossos esforços. Desviamos os olhos da bola quando se trata de trabalho forçado", disse à Reuters o diretor-geral da OIT, Guy Ryder, pedindo melhorias nas práticas de recrutamento e nas inspeções trabalhistas.

Ele disse que medidas comerciais, como a proibição da importação de produtos feitos com trabalho forçado, atualmente em avaliação pela União Europeia, também podem ajudar.

Segundo o relatório, o Qatar -acusado de violar direitos trabalhistas de migrantes que trabalham na preparação para a Copa do Mundo de futebol, em novembro-- fez "progressos significativos" desde a assinatura de um escritório da OIT no país, em abril de 2018.

O relatório da OIT também apontou preocupação com acusações de trabalho forçado contra minorias muçulmanas em algumas partes da China. Um relatório divulgado pelo escritório de direitos humanos da ONU em 31 de agosto dizia que o país cometeu "graves violações de direitos humanos" contra uigures e outros grupos e que a detenção dessas pessoas em "campos de reeducação" pode constituir crimes contra a humanidade.

A China negou vigorosamente as acusações e no mês passado ratificou duas convenções contra o trabalho forçado.

Em relação aos casamentos forçados, o documento da OIT mostra que mais de 6 milhões de pessoas foram afetadas, muitas delas meninas obrigadas a se casarem com 16 anos ou menos, especialmente na Ásia, no Pacífico e em países árabes. Mais de 80% dos casos foram motivados pela pressão familiar.