'Vômito jurássico' dá pistas sobre alimentação de animais pré-históricos

LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) - Cerca de 150 milhões de anos depois de terem sido expelidos por um animal ainda não identificado, provavelmente um pequeno peixe ou mamífero semiaquático, vestígios fossilizados de alimentação regurgitada agora servem como importante fonte de informação científica.

A amostra de "vômito pré-histórico" foi analisada por um time de pesquisadores americanos, em artigo publicado na revista especializada Palaios.

"O aspecto interessante dos bromálitos [restos fossilizados de material proveniente do sistema digestivo] é o potencial para termos evidências diretas sobre os itens alimentares dos animais", explica o líder do trabalho, John Foster, do Parque Museu de História Natural de Utah, nos Estados Unidos.

Os vestígios foram encontrados em uma região no sudeste do Utah, conhecida pelos paleontólogos como "Bufê de Saladas Jurássico", devido à abundante presença de plantas fossilizadas.

As condições do local foram consideradas cruciais para a preservação da amostra.

"Assim como para muitos fósseis, um ponto-chave para a preservação é o enterro relativamente rápido e a falta de deterioração por necrófagos ou bactérias que fazem decomposição. Esse ambiente, [que era] uma lagoa ou um lago, parece ter proporcionado isso", diz Foster.

"Ainda mais impressionante é a preservação fossilizada de folhas moles inteiras no mesmo local, em muitos casos com a cutícula intacta também", detalha.

Embora se trate de uma amostra bastante compacta, com cerca de 1,33 cm2, o exemplar reúne mais de 20 pequenos ossos e outros materiais. Ao analisar o conteúdo, os cientistas identificaram que a "refeição" incluiu possivelmente pequenos sapos e até uma minúscula salamandra.

Uma parte importante do trabalho foi diferenciar se a massa encontrada era uma amostra de vômito ou de fezes. Para isso, o grupo levou em consideração uma série de características do material, desde a coloração, espessura e até a presença de sedimentos.

A ausência "de volume significativo de massa de solo" entre os elementos ósseos identificados foi um dos pontos que ajudaram a sugerir que se tratava de material regurgitado. Outra questão determinante foi o estado do material fossilizado.

"Muitos dos ossos são elementos delicados e pontiagudos que dificilmente sobreviveriam à digestão completa sem sofrer quebra e dissolução", diz o artigo.

Também pelo estado de processamento do material fossilizado, os cientistas consideram que o predador não mastigou bem antes de engolir suas presas.

A principal hipótese levantada pelos pesquisadores é que um animal de pequenas dimensões, como um peixe ou um mamífero semiaquático, tenha regurgitado o material.

"Às vezes, os peixes regurgitam alimentos totalmente engolidos quando ameaçados, por exemplo, se estiverem sendo perseguidos em ambientes experimentais e também regurgitam restos parcialmente ingeridos de presas relativamente grandes", exemplificam os pesquisadores.

Na avaliação do líder da pesquisa, John Foster, as semelhanças entre o comportamento de animais no Jurássico e nos dias atuais é um dos pontos mais interessantes do trabalho.

"Esse fóssil mostra interações entre presas e predadores que são muito familiares para nós. Essa é uma cena que podemos testemunhar nos ambientes pantanosos atuais", afirma. "Nem todos os aspectos da vida durante o Jurássico Superior eram diferentes dos de hoje", completa.

O estudo dos excrementos de animais pré-históricos —incluindo fezes (coprólitos) e urina (urólitos)— já é um domínio bem estabelecido na paleontologia, sobretudo com material referente a dinossauros.

No domínio dos xixis pré-históricos, o Brasil é uma das grandes referências. Em 2004, foi um estudo publicado por paleontólogos brasileiros que ajudou a confirmar o sistema excretor de líquidos dos dinossauros, e os cientistas nacionais estão entre os maiores especialistas na área.