Vacinação avança com dificuldade na Argentina em meio a segunda onda da pandemia

Sonia AVALOS
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Mulher recebe a vacina Sputnik na cidade argentina de Rosario

A Argentina avança com muitas dificuldades na vacinação contra a covid-19 em meio aos grandes atrasos na entrega das doses e à urgência pelo aumento de infecções que antecipa uma segunda onda da pandemia.

Logo no início do outono, cerca de três milhões de pessoas foram inoculadas com a primeira dose e cerca de 600.000 com a segunda, de acordo com o registro público de vacinação.

O resultado está longe dos planos do presidente Alberto Fernández, que esperava ter 20 milhões de doses da vacina russa Sputnik V até o final de fevereiro, com possibilidade de mais cinco milhões.

Apesar de participar de testes voluntários da fase 3 do imunizante da Pfizer/BioNTech, a Argentina não conseguiu fechar um contrato com a empresa farmacêutica norte-americana. Em vez disso, recebe a vacina do grupo chinês Sinopharm, a cujos ensaios também aderiu.

E aguarda o avanço do acordo firmado com o México para a produção e distribuição conjunta da AstraZeneca e da Universidade de Oxford na América Latina.

Nesta terça-feira chegou da Rússia a nona remessa da Sputnik V - cerca de 300 mil doses -, com a qual a Argentina recebeu de 5,76 milhões de doses de diversos laboratórios, de um total de 65 milhões compradas.

A escassez de vacinas levou o governo a adiar as segundas doses.

- Momento crucial -

A Argentina, com 45,5 milhões de habitantes, somou nesta terça-feira 10.154 novos casos e 125 mortes, o que eleva o balanço de óbitos por covid-19 a 55.736 e de infecções a 2,3 milhões.

Na segunda-feira, foram registrados 14.014 novos casos, maior pico desde outubro. Além disso, confirmou a circulação de quatro variantes: Manaus, Rio de Janeiro, Califórnia e Reino Unido.

“Estamos em um momento crucial da pandemia”, disse à AFP a infectologista Gabriela Piovano, do Hospital Muñiz, referência na especialidade.

"A partir de dezembro começarão a aumentar os casos, desta vez em jovens que têm menos risco de evoluir para quadros graves", continuou. "Mas se não fizermos nada, por mais que as pessoas infectadas sejam majoritariamente jovens, ao longo do tempo o sistema hospitalar vai acabar colapsando".

A curva de contágio saltou nas últimas duas semanas, passando de 6.164 novos casos no dia 15 de março para 14.014.

A ocupação de leitos de terapia intensiva é de 55,3% no país. O número que sobe para 60% na região metropolitana de Buenos Aires, com quase 15 milhões de habitantes.

“Embora os hospitais tenham se equipado, a situação mais crítica é com os funcionários que trabalham na terapia intensiva, eles sofrem estresse psicológico e estão exaustos”, explicou à AFP Rosa Reina, presidente da Sociedade Argentina de Terapia Intensiva.

Como explica a médica, “há instituições cujas terapias intensivas já estão com 80% da capacidade saturada”, enquanto “vemos cada vez mais pacientes mais jovens do que a idade média de 55 anos”, o que ela atribuiu ao fato "deles se cuidaram menos".

- Vacinar ou confinar -

“A segunda onda já começou, ninguém tem dúvida disso, afirmou o chefe de gabinete da província de Buenos Aires, Carlos Bianco, ao anunciar novas restrições em sua jurisdição nesta terça-feira.

A mobilidade interna não foi limitada, porém, durante a Semana Santa, as fronteiras terrestres permanecerão fechadas e os voos do Chile, México e Brasil foram suspensos. Os do Reino Unido e Irlanda do Norte já haviam sido cancelados.

Eduardo López, um dos infectologistas que assessora o governo, considerou ser “fundamental acelerar a vacinação”.

“É preciso imunizar a população mais vulnerável: os maiores de 60 anos, mas até sexta-feira, somente cerca de 20% do total de 7,5 milhões deles haviam recebido apenas uma dose", explicou.

O plano de vacinação prioriza profissionais de saúde, professores, autoridades estratégicas para o Estado e adultos por faixa etária.

“A vacina é a saída dessa situação, mas é no longo prazo”, avaliou Piovano.

A erradicação do vírus da circulação comunitária “é por meio da imunidade de rebanho, que vai depender da vacinação de 75% das pessoas e estamos perto de apenas 3%. Falta muito”, disse.

“Hoje, a única coisa que funciona como prevenção, além da vacina, é o isolamento”, afirmou o médico.

Em sua opinião, mesmo que o governo demore a tomar a decisão pelo 'lockdown', será inevitável.

“Se houver um colapso, ninguém vai discutir a medida, não será necessário que seja algo que tenha que ser imposto, na verdade quem vai nos impor isso é o vírus”, concluiu.

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