Vacinação contra a Covid-19 engatinha em clínicas particulares

A professora Priscilla Ricci, de 44 anos, pagou R$ 300 no último dia 15 de junho para tomar a quarta dose da vacina contra Covid-19 em uma clínica privada de Belo Horizonte. Preocupada com os pais idosos e com comorbidades, com quem mora, ela preferiu não esperar sua vez para reforçar a imunização na rede pública, o que só aconteceria alguns dias depois. A docente, porém, é uma exceção.

Levantamento da Associação Brasileira de Clínicas de Vacina (ABCVac) feito a pedido do GLOBO mostra que, um mês e meio após as doses começarem a ser aplicadas na rede privada, apenas 10% das clínicas se interessaram em oferecer doses de AstraZeneca — a única farmacêutica a negociar com o mercado privado até o momento no Brasil. Não há, porém, um número consolidado de quantas pessoas se vacinaram pela iniciativa privada seis semanas após o início e nem em qual etapa de imunização, isto é, da primeira à quarta dose.

— O movimento está muito aquém do que imaginávamos até mesmo porque o Ministério da Saúde está no processo de reduzir as faixas etárias sem aviso prévio. Então, isso gera insegurança para as clínicas trabalharem e divulgarem (a vacinação) — afirma o presidente da ABCVac, Geraldo Barbosa.

Um dos principais entraves para alavancar a vacinação privada é o preço, em torno de R$ 300 por dose. O valor elevado se deve, sobretudo, à alta do dólar, já que a vacina da AstraZeneca é importada dos Estados Unidos. Outra dificuldade, segundo as clínicas, está na apresentação do frasco, que conta com dez doses e validade de 48 horas após aberto.

Nesse sentido, a avaliação das clínicas é de que, se falta procura, pode haver desperdício de doses — o que elevaria custos e geraria prejuízo. A baixa procura reflete as taxas de cobertura estagnadas em todas as faixas etárias no Sistema Único de Saúde (SUS). O levantamento da entidade compila respostas de estabelecimentos de saúde do Rio de Janeiro, de São Paulo e de Belo Horizonte entre 200 associados.

Em geral, o perfil de quem busca a vacinação privada é de pessoas que preferem horários e atendimento diferenciados, como agendamentos e aplicação em casa, diz a ABCVac. Barbosa afirma que pessoas de maior risco para a Covid-19 ou que vão viajar para locais onde há maior circulação do coronavírus têm buscado as clínicas.

No caso de Priscilla, a professora de Belo Horizonte que se vacinou numa clínica, ela precisou de uma prescrição médica para conseguir tomar a dose de reforço antes numa clínica. Isso porque a rede privada precisa seguir o calendário do Ministério da Saúde, a não ser que haja uma recomendação médica.

— Eu não sabia ainda, por conta da ordem de prioridades, quando chegaria a quarta dose para minha idade. Sou professora, a gente vivia um aumento de casos no Brasil e em Belo Horizonte, tenho contato com muita gente e estava preocupada, já que meus pais moram comigo e são idosos — diz a docente.

Atualmente, a quarta dose está liberada para pessoas a partir de 40 anos e profissionais de saúde, além de imunossuprimidos — pessoas com a imunidade fragilizada por câncer, HIV/Aids ou transplante, por exemplo —, incluindo adolescentes.

A faixa etária pode ser menor caso a localidade tiver avançado no calendário, já que estados, Distrito Federal e municípios têm autonomia para estabelecer os próprios cronogramas de imunização. É o caso da capital paulista, por exemplo, que baixou a idade para 35 anos.

Outro dado que evidencia a baixa procura é o do Vacinas.net, marketplace de clínicas de imunização, que vende imunizantes contra a Covid-19. Dos 287 estabelecimentos parceiros, a ferramenta contabiliza apenas 50 doses aplicadas:

— Na busca em si, tem bastante gente interessada. Mas a realização de doses não tem sido um dado relevante para nós. Aplicamos pouquíssimas doses de Covid em ambiente privado — diz o CEO da empresa e integrante do conselho fiscal da ABCVac, Marcos Tendler. — Estamos tentando entender o porquê.

Uma lei de março do ano passado já permitia que a iniciativa privada comprasse vacinas anticovid desde que metade das doses fosse doada ao SUS e que não houvesse uso comercial. À época, porém, nenhum laboratório negociava com empresas. Segundo interlocutores, o cenário mudou em março, mês em que a AstraZeneca passou a negociar com clínicas diante da perspectiva do fim da Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (Espin).

As tratativas avançaram em abril e se concretizaram após a queda do estado de emergência, que terminou em 22 de maio. Como O GLOBO mostrou, as primeiras doses chegaram às clínicas no dia 31 daquele mês. O governo facilitou a comercialização em junho, quando publicou uma Medida Provisória que derrubou a obrigatoriedade de doação.

De acordo com a AstraZeneca, há 1 milhão de doses disponíveis para o setor e outro milhão deve ser destinado em breve, mas sem divulgar uma data. A expectativa do setor privado é que a busca pelas doses aumente nas clínicas:

— O que estamos preparando, até mesmo a integração do sistema (particular, para notificação de doses) com o DataSUS, é vendo o ano que vem, porque o Ministério da Saúde ainda não deu a recomendação de como será a imunização contra Covid em 2023. Então, estamos trabalhando para o mercado privado ser uma opção para garantir que o imunizante chegue a quem precisa num tempo mais hábil — continua o presidente da ABCVac.

Ao GLOBO, a Pfizer e a Janssen informaram que continuam a negociar apenas com governos. Esse posicionamento, contudo, pode mudar nos próximos meses:

“A Janssen reconhece o papel do setor privado no enfrentamento da pandemia e informará as partes interessadas quando outras opções de aquisição de vacinas estiverem disponíveis”, diz a nota.

Já o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que fabricam a CoronaVac e a AstraZeneca no Brasil, pontuaram, em nota, que concentram os esforços em atender a rede pública.

“A produção dessas vacinas é, portanto, integralmente destinada ao Ministério da Saúde, não cabendo à Fundação atender a qualquer demanda específica por vacinas”, afirma a Fiocruz.

Segundo Barbosa, da ABCVac, a entrada de novas marcas de vacinas no mercado privado poderia ajudar a reduzir o valor das doses:

— Esse é o grande anseio nosso: que tenhamos mais indústrias ofertando, porque, com certeza, vai fazer com que o preço fique mais acessível. É difícil quando temos só um fabricante.

(Colaborou Alice Cravo)

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