Vacinação da Covid-19: para especialistas, ações de Bolsonaro ameaçam imunidade coletiva

Ana Lucia Azevedo
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Pablo Jacob / Agência O Globo

RIO — Medidas e declarações do presidente Jair Bolsonaro ameaçam dificultar que o Brasil alcance a imunidade coletiva contra o coronavírus, fazendo com que a pandemia se perpetue no país. O país se vê na contramão do restante do mundo, cujos governantes manifestam apoio explícito à vacinação. Apesar da coletiva de tom mais moderado no lançamento do Plano Nacional de Vacinação, ao declarar que não se vacinará, por exemplo, Bolsonaro deixa evidente sua falta de apoio a uma vacina contra o coronavírus, alertam especialistas.

Num caso único no mundo, o governo de Bolsonaro também exige que as pessoas assinem um termo de responsabilidade, quando receberem vacinas aprovadas em caráter emergencial pela Anvisa.

Todas as vacinas aprovadas até agora no mundo foram em caráter emergencial, mas nenhum governo exigiu termo semelhante. Vacina aprovada em caráter emergencial não é teste nem a população vacinada é voluntária, explicam cientistas e especialistas em saúde pública.

Se a Anvisa aprova, mesmo que em caráter emergencial, ela chancela a vacina. Eventuais riscos estarão na bula do imunizante, e o cidadão deve ser orientado, observa o infectologista Julio Croda, professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e da Escola de Saúde Pública de Yale.

— Esse tipo de atitude semeia dúvidas desnecessárias e abala a confiança da população. O brasileiro historicamente aderia à vacinação. A urgência e a necessidade de imunizantes são consenso entre cientistas. Também há uma clara mensagem de negação da ciência. Isso é tudo o que não precisamos, num momento em que os casos e mortes só aumentam — afirma a epidemiologista Carla Domingues, que por oito anos (2011 a 2019) esteve à frente do Programa Nacional de Imunizações (PNI).