Vacinação em massa leva otimismo a Serrana, no interior de SP

Giuliana de Toledo
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SÃO PAULO — Desde meados de fevereiro, ser morador da cidade de Serrana, no interior paulista, virou sinônimo de sorte. O município da região de Ribeirão Preto, com população estimada pelo IBGE em 45 mil habitantes, foi o escolhido para receber o chamado Projeto S, estudo clínico inédito no mundo para a vacinação em massa contra a Covid-19.

A iniciativa do Instituto Butantan, que produz no Brasil a CoronaVac, começou a aplicar as doses no dia 17 de fevereiro. O grupo de 28.380 sortudos — apenas pessoas acima de 18 anos que moram em Serrana — foi dividido em quatro subgrupos. Desses, três já completaram a primeira dose, o que corresponde a 19 mil pessoas, 67% da população-alvo atingida.

A turma restante, que começou a imunização na última quarta-feira, deve completar hoje a sua participação no primeiro ciclo de vacinação. E, já na quarta, começará a ser aplicada a segunda dose para os primeiros voluntários do projeto.

Na cidade, diz o prefeito Léo Capitelli (MDB), o clima já é de otimismo, autoestima e esperança — para o bem e para o mal. Ainda que ninguém por lá possa ostentar anticorpos com segurança científica, uma vez que é necessário esperar a segunda dose para o desenvolvimento completo deles após cerca de, no mínimo, duas semanas, já há quem confie e abuse.

Segundo o gestor, a orientação para o uso de máscara mesmo entre os participantes do projeto precisou ser reforçada nas últimas semanas.

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— A pessoa às vezes toma a vacina e acha que está imunizada já — lamenta Capitelli. — O pessoal precisa ter um pouquinho de paciência. Nós estamos com uma oportunidade única, que qualquer cidade do mundo gostaria de ter, então temos que aguardar e depois seguir as orientações para uma retomada gradual — avalia.

Também passou a preocupar a administração local o aumento no número de denúncias de festas em chácaras, que, diz o prefeito, são coibidas pela vigilância sanitária.

— Normalmente são encontros noturnos de amigos [nas propriedades]. A fiscalização tem atuado com mais intensidade nos últimos dois finais de semana, mas a gente sabe que não consegue fechar e cercar todas as situações. É preciso elevar o nível de consciência — diz.

Segundo o prefeito,a falta de adesão por questões de resistência ao imunizante é mínima. A primeira fase do projeto não terminará com 100% de adesão, mas todos os subgrupos tiveram até agora 92% ou mais de comparecimento, um percentual considerado alto e satisfatório para a iniciativa.

Mas por que nem todos vão se vacinar? Mesmo sendo uma oportunidade única, na hora de tomar a dose, nem todos os potenciais sortudos podem efetivamente participar. Gestantes, lactantes e pessoas que tiveram problemas de saúde nos dias próximos à data de convocação ou que têm comorbidades não controladas ficam de fora.

Essas, explica Pedro Garibaldi, médico hematologista do Hospital Estadual de Serrana e um dos coordenadores do Projeto S, são premissas do estudo, para que outras condições de saúde não interfiram na avaliação de como funcionará a vacina. Tal seleção, ele conta, também foi empregada na fase 3 dos estudos da CoronaVac com profissionais de saúde brasileiros.

— A gente quer responder algumas perguntas que o estudo em fase 3 não consegue responder, como a avaliação de redução de casos graves. No estudo fase 3, tivemos só 7 casos graves, com internação, e esse é um ‘n’, um número muito pequeno para você avaliar que isso tem significância estatística. Agora vamos avaliar um grupo maior de pessoas. E também vamos avaliar a questão da transmissibilidade — explica.

Reabertura antecipada

Na esteira dos resultados, que devem começar a sair em maio, deve vir uma reabertura econômica e social diferente da das outras cidades, prevê Capitelli.

— Estamos bastante esperançosos de ganhar pelo menos um ano com essa vacinação em massa. Entre duas semanas e 20 dias, após encerrar a segunda dose do projeto [em meados de abril], queremos ter uma retomada econômica e educacional, com aulas presenciais. Acredito sim que Serrana vai ter a grande oportunidade de mostrar para o mundo a eficácia da vacina no combate à Covid-19.

Enquanto isso, a cidade que ensaia a vida em um mundo com vacinas em abundância precisa se cuidar. Amanhã, assim como todas do estado, ela entrará na chamada fase emergencial do Plano São Paulo, que inaugura restrições até para os serviços considerados essenciais e que estabelece toque de recolher entre 20h e 5h todos os dias.

— No momento, medidas restritivas são necessárias, temos mais de 90% de ocupação de leitos — lembra Garibaldi.