Vacinação preocupa e PIB do Brasil deve crescer menos que outros emergentes, diz OCDE

·4 minuto de leitura

PARIS — A ampla disseminação do vírus da Covid-19 e medidas restritivas descoordenadas entre os estados pioraram a situação sanitária no Brasil e, apesar da capacidade local de produção de imunizantes, o ritmo lento da vacinação peocupa e ainda pode representar risco para a recuperação da economia do país, que vai ficar abaixo de outros países emergentes, como China e Argentina.

É o que aponta a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em seu relatório semestral com perpectivas sobre a economia global, divulgado nesta segunda-feira.

Embora tenha ressaltado que a economia brasileira conseguiu se recuperar no fim de 2020, apesar do elevado número de infecções e mortes pelo novo coronavírus, a organização manteve a previsão feita em março de crescimento de 3,7% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2021, impulsionado por um aumento progressivo do consumo e do investimento das famílias. Já a economia da chinesa deve avançar 8,5% e a da Argentina, 6,1%.

Para 2022, no entanto, a OCDE revisou de 2,7% para 2,5% a previsão de aumento do PIB do Brasil. O resultado do PIB brasileiro no primeiro trimeste deste ano será divulgado nesta terça-feira.

A organização sediada em Paris melhorou suas projeções de aumento do PIB mundial em 2021 para 5,8%, elevando sua estimativa de 5,6% feita na projeção divulgada em março. Esta seria "a maior taxa desde 1973", afirmou a economista-chefe da OCDE, Laurence Boone, em uma entrevista coletiva.

—Se a vacinação acelerar e as pessoas gastarem o dinheiro que pouparam, o crescimento pode ser ainda maior —completou.

A organização, no entanto, reforça que a recuperação é frágil e "desigual". Prevê crescimento de de 6,9%, nos Estados Unidos, país que já retornou aos níveis anteriores à pandemia, mas de apenas 2,6% no Japão, e de 3,3%, na Alemanha.

Na América Latina, a instituição prevê que o México vai crescer 5,0% em 2021; o Chile, 6,7%; e a Colômbia, 7,6%.

Níveis pré-pandemia

Para o próximo ano, a organização apontou um crescimento de 4,4% do PIB global, frente aos 4% previsto em março, o traria a maior parte do mundo de volta aos níveis de atividade econômica anteriores à pandemia, acrescentou.

No entanto, a OCDE alertou que os padrões de vida em muitas economias desenvolvidas ainda ficarão muito aquém dos níveis esperados antes da pandemia. Segundo a organização, a produção em muitos países europeus, especialmente aqueles que dependem do turismo, ficará bem abaixo dos níveis pré-pandemia.

"Os governos administraram quase dois bilhões de doses de vacinas, e nunca antes em uma crise havíamos observado políticas públicas tão rápidas e eficazes, tanto em termos de saúde como de desenvolvimento de vacinas, ou em termos monetários, fiscais, ou financeiros", destaca Laurence Boone no relatório.

Há muitos sinais positivos, destaca a oCDE, como o aumento da produção industrial, a forte recuperação do comércio mundial de mercadorias e o aumento do consumo depois dos confinamentos.

Ventos contrários

"Porém, muitos ventos contrários persistem", adverte a OCDE, acrescentando que, "até que a grande maioria da população mundial seja vacinada, todos continuaremos à mercê do surgimento de novas variantes".

Novos confinamentos abalariam a "confiança" e muitas empresas, "antes bem protegidas, mas muitas vezes sobrecarregadas com uma dívida elevada, podem ir à falência", alerta Boone.

— Há pouca cooperação internacional e o resultado é que as perspectivas de recuperação são muito desiguais — lamentou o secretário-geral da OCDE, o mexicano Ángel Gurría, que participou em sua última coletiva no posto.

Sob seu mandato, a organização internacional, que durante muito tempo havia se limitado a elaborar informes, ganhou influência e virou um organismo de negociação multilateral, especialmente no âmbito fiscal.

"A OCDE seguirá defendendo com firmeza um enfoque multilateral para acabar com a pandemia em todo o mundo", disse Gurría, que completou 15 anos no cargo.

Outro risco identificado pela OCDE é o nervosismo dos mercados financeiros, preocupados com as altas inflacionárias e que, segundo a instituição internacional, são apenas um fenômeno temporário ligado à recuperação econômica.

"Acreditamos que a inflação deve diminuir em 2022", disse Boone, ao reconhecer que está preocupada "com a volatilidade dos mercados financeiros, que teria consequências para as economias desenvolvidas e emergentes, ao provocar uma fuga de capitais".

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos