Vacina contra Covid-19 e crianças: o que já sabemos sobre datas, estudos, doses e riscos

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Ainda não há, sequer, previsão do início da vacinação contra Covid-19 nas crianças e adolescentes. (Foto: Getty Images)
Ainda não há, sequer, previsão do início da vacinação contra Covid-19 nas crianças e adolescentes. (Foto: Getty Images)

Os brasileiros aguardam com cada vez mais esperança a chegada de uma vacina contra a Covid-19 ao país. As discussões, no entanto, estão centradas somente na imunização dos chamados grupos de risco da doença (idosos, profissionais de saúde e populações indígenas e quilombolas), sem citar a vacinação de crianças e adolescentes.

O Yahoo Notícias! conversou com Flávia Bravo, pediatra e diretora da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), para explicar como fica a situação das crianças e dos adolescentes enquanto as vacinas não chegam e tirar dúvidas que rondam a cabeça dos pais.

Quando as crianças poderão ser vacinadas?

Até agora, não existe a menor previsão para isso, nem nas perspectivas mais otimistas.

A razão é que todos os estudos clínicos das vacinas ao redor do mundo, principalmente os de fase 3 — com teste ampliado na população —, foram focados em pessoas acima dos 18 anos.

“Temos alguns estudos de vacinas que já selecionaram adolescentes. Outros, no entanto, ainda estão organizando essa metodologia. A vacina da Pfizer-BioNTech, por exemplo, já foi testada em adolescentes acima dos 16 anos. Já existe também pedidos para testes em crianças de 12 anos, mas nenhum foi iniciado”, explica Flávia.

A médica argumenta é preciso, primeiramente, aguardar a realização dos estudos com crianças e seus resultados. “Depois de tudo isso, ainda é necessário esperar que haja disponibilidade dessas vacinas para esse grupo”, completa.

Por que os estudos feitos até agora não envolveram crianças?

Diante de uma emergência sanitária global como nunca vista nos últimos 100 anos, as farmacêuticas e laboratórios deram prioridade em testar como as vacinas irão se comportar nos grupos de risco, que representam a maioria dos casos graves e óbitos.

Desde que a Covid-19 se espalhou pelo mundo, os cientistas e pesquisadores têm analisado como a doença evolui nas diferentes faixas etárias. O retrospecto até agora mostrou que as crianças e adolescentes se infectam, mas não é a que mais desenvolve casos graves.

“Além da baixa letalidade e nas taxas pequenas de casos graves, a população pediátrica também não tem a mesma importância na transmissão da Covid-19. Por exemplo, nos surtos de gripe, sabemos que as crianças ‘trazem’ a doença para casa e contamina os adultos. Isso não é observado, até agora, no novo coronavírus”, afirma a pediatra.

Apesar da falta de estudos, a Moderna anunciou, no começo de dezembro, que planejava iniciar em breve os testes da vacina em idades entre 12 a 17 anos. A Oxford/AstraZeneca chegou a anunciar que também faria a testagem em crianças com mais de 5 anos, mas posteriormente retirou esse grupo do estudo.

O Instituto Butantan, responsável pelo desenvolvimento da vacina contra Covid-19 no Brasil em parceria com o laboratório chinês Sinovac Biotech, tem informado nas redes sociais que a CoronaVac não foi testada em menores de 18 anos e, portanto, não é recomendada para uso nesse grupo etário.

“A inclusão dessas faixas específicas ainda está em análise para uma provável etapa posterior”, completa o instituto.

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As vacinas criadas até agora são seguras para crianças?

Sem estudos, essa pergunta segue sem resposta.

“Não temos nenhum dado sobre isso. Nada, nada. Então, temos que esperar um pouco mais”, avalia Flávia.

As crianças precisarão de mais doses da vacina do que os adultos?

Ainda não é possível dizer a quantidade de doses que serão necessárias às crianças, mas não só pela ausência dos estudos.

Outro fator que compõe essa questão é a nova tecnologia que serviu de base para criação de algumas vacinas contra a Covid-19.

“As vacinas com o vírus inativado, como a CoronaVac, por exemplo, a gente já sabe como se comportam. Já as vacinas da Pfizer e da Moderna foram criadas com a tecnologia do RNA mensageiro, que é nova, e não há um parâmetro de comportamento ainda”, explica a pediatra.

Essa definição depende também da faixa etária. Nas vacinas já existentes contra outras doenças, a dosagem varia de acordo com idade e com a resposta imune que será gerada no organismo naquele estágio de desenvolvimento.

“Na vacina contra HPV, sabemos que entre 9 e 15 anos consegue-se a imunização com duas doses. Depois dos 15 anos anos, são necessárias 3 doses. O sistema imune também tem uma resposta que depende da idade”, esclarece Flávia.

Qual o risco de crianças estarem ‘no fim da fila’ das vacinas?

“Pais, tenham calma”. Dessa forma a pediatra inicia sua resposta.

A especialista justifica que há, de fato, registro de casos de crianças que desenvolveram as formas mais severas de Covid-19. “Mas o percentual é muito, muito pequeno. Para uma situação grave, de UTI, os casos são mais raros ainda.”

Flávia também lembra que, conforme a vacinação for avançando no país, menor deve ser a circulação do vírus. E, consequentemente, menor é a chance da criança ou do adolescente serem infectados.

Posso mandar meu filho de volta à escola mesmo sem estar vacinado?

Na avaliação da pediatra, “não vai ter outro jeito”.

Schoolgirl with face mask using hands sanitizer while sitting at a desk in the classroom.
Uma das recomendações para volta às aulas é a higienização constante das mãos. (Foto: Getty Images)

“Não vão ter vacinas para as crianças tão cedo. Manter a criança fora da escola é um crime. O preço de manter uma criança fora da escola para sua saúde mental, sua saúde nutricional, de seu desenvolvimento cognitivo, são todos preços altíssimos e eles têm de ser colocados na balança”, justifica.

Entre as recomendações para volta às aulas, a Sociedade Brasileira de Pediatria indica a lavagem adequada das mãos com água e sabão; o uso das máscaras para crianças acima de 2 anos; e o distanciamento físico de no mínimo 1,5m.

A pediatra também ressalta que é preciso cobrar medidas sanitárias responsáveis dos gestores municipais, como organização do transporte público, por exemplo.

Flávia reconhece que, apesar desses fatores, não é uma decisão fácil.

“Em uma opinião pessoal, não é coerente, considerando todas as evidências científicas, deixar que as crianças paguem o preço dessa pandemia quando temos uma situação de comércio funcionando, de praias lotadas e tudo o que temos visto”, completa ela.

Dicas aos pais:

  • Procure sempre informações em fontes confiáveis;

  • Sempre verifique a origem de informações veiculadas;

  • Tenham paciência e confiança na ciência, que mostrou até agora que as crianças adoecem menos e têm menor participação na transmissão do vírus;

  • Pratiquem e mantenham o distanciamento social;

  • Usem máscara, salva vidas. A sua e a dos outros;

  • Vacina, quando chegar, não será passaporte para liberdade sanitária. Aja com responsabilidade;

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