Vacina contra Covid antes de cirurgia poderia evitar quase 60 mil mortes em um ano

Giuliana de Toledo
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SÃO PAULO — Incluir a vacina contra a Covid-19 na preparação de pacientes que precisam passar por cirurgias poderia evitar a morte de quase 60 mil pessoas por ano. O número está na conclusão de um estudo internacional, com participação do Brasil, que avaliou a necessidade da imunização no período pré-operatório.

Se a aplicação das vacinas contra o coronavírus virasse prática antes das cirurgias eletivas, seriam poupadas, em média, 58.687 vidas ao longo de um ano no mundo inteiro. A projeção estatística feita pelo grupo de pesquisadores em artigo que saiu recentemente no "British Journal of Surgery" previu, no cenário mais otimista, um benefício até maior: 115.007 mortes por Covid evitadas. Ainda no pior cenário, a quantidade calculada foi relevante, de 20.177 salvos.

Segundo o artigo, de 0,6% a 1,6% dos pacientes desenvolvem infecção pela Covid-19 após passarem por uma cirurgia eletiva. Esses que são acometidos pelo vírus correm de quatro a oito vezes mais risco de morrerem nos 30 dias posteriores à operação.

A noção de que esse grupo de indivíduos deve ser protegido antes da operação é especialmente importante no período atual, em que os países debatem como deve ser organizada a fila da vacinação, uma vez que as doses são escassas, destaca Felipe Coimbra, cirurgião oncológico que foi um dos coordenadores do trabalho no país.

— O uso de vacina nesses pacientes salva mais vidas se comparado com o mesmo número de pessoas que tomarem a vacina na população geral — explica o médico, que lidera a área de tumores abdominais do A.C.Camargo Cancer Center e é diretor do Instituto Integra Saúde, em São Paulo. — A gente tem que ter bastante cuidado ao falar de grupos com maior benefício, porque a gente está em um momento de falta de vacina no Brasil e em outros lugares do mundo, mas, à medida que os grupos de maior risco pela idade estejam imunizados, temos que começar a pensar na priorização de outros que, vacinados, diminuiriam ainda mais a morte por Covid — avalia.

Esforço global

O estudo se baseou na análise de dados de 141.582 doentes de 1.667 hospitais em 116 países. O Brasil colaborou com estatísticas de dezenas de hospitais de diversos estados, conta Coimbra.

O convite para isso partiu de um grupo de cientistas da Inglaterra, da Universidade de Birmingham, que, desde o ano passado, mobiliza colegas mundo afora para criar conhecimento que ajude a deixar as cirurgias mais seguras em tempos de pandemia — daí o nome de CovidSurg, como se autointitula esse consórcio de pesquisa.

Em um artigo anterior, o CovidSurg já concluiu, por exemplo, que, no caso dos pacientes que tiverem Covid e necessitarem fazer uma cirurgia por alguma outra razão, é melhor esperar ao menos seis semanas depois da infecção pelo Sars-CoV-2 para operá-los, pois a segurança é muito maior.

— O paciente que tem Covid ou descobre Covid um pouco antes ou logo depois da cirurgia tem um risco maior de complicações e até de mortalidade — diz Coimbra, que já presidiu a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).

Prioridade

O novo estudo, que recomenda a vacinação pré-operatória, avaliou tanto os casos de cirurgias para tratar câncer quanto outros problemas de saúde. Os benefícios, no entanto, se provaram maiores para aqueles pacientes que estão lutando contra o câncer, especialmente os com 70 anos ou mais.

Geralmente, as pessoas dessa faixa etária têm taxa de mortalidade de 2,8% quando submetidas a uma cirurgia oncológica, mas, se desenvolvem a infecção causada pela Covid, esse percentual sobe para 18,6%.

Diante dessas evidências, o grupo de estudiosos espera agora que esse trabalho sirva para embasar novas políticas públicas para a vacinação.

“Muitos países, especialmente os de baixa e média renda, não terão acesso amplo às vacinas da Covid por vários anos. Enquanto o fornecimento de vacinas é limitado, os governos têm dado prioridade à vacinação para grupos com maior risco de mortalidade pela Covid-19. Nosso trabalho pode ajudar a tomar essas decisões de modo informado”, conclui Aneel Bhangu, pesquisador da Universidade de Birmingham que é coautor do estudo, na divulgação do material.