Vacina contra o coronavírus 100% brasileira entra em testes com humanos neste ano, dizem cientistas

Ana Lucia Azevedo e Rafael Garcia
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RIO E SÃO PAULO — Até agora amargando falta de recursos, os projetos de vacinas brasileiras começam a ser vistos como estratégicos. Com o país sem doses suficientes de vacinas estrangeiras para proteger a população, cientistas brasileiros esperam que, finalmente, o governo invista no desenvolvimento de imunizantes 100% nacionais.

Entre 15 projetos de vacina contra Covid-19 propostos no Brasil em 2020, quatro veem agora chances reais de seguir adiante. Os projetos do Instituto do Coração, do Instituto de Ciências Biológicas da USP, da start-up paulista Farmacore e da UFMG buscam iniciar testes em humanos ainda este ano.

Lançados em iniciativas dispersas, estes projetos dividiram em 2020 um bolo de verbas modesto (R$ 9 milhões) do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações — que, alinhado ao Ministério da Saúde, apostou em medicamentos sem eficiência comprovada contra o coronavírus.

O governo começou a fazer acenos a alguns dos cientistas. Mas ainda não há valor concreto anunciado nem se sabe de onde sairia a verba a ser investida.

Parceria público-privada

O ministro Marcos Pontes já se arriscou a prever que teríamos uma vacina 100% brasileira até o final de 2021. Na quinta-feira, o presidente Jair Bolsonaro disse: “Covid, pessoal, vai ficar a vida toda. (...) Vamos ter que aprender a conviver com isso aí. E nada melhor do que termos a nossa própria vacina para tal.” Na sexta, ele defendeu a vacina brasileira (“não pode ficar comprando se pode produzir aqui”) e disse que Pontes “está quase acertando aí 300 milhões” para a produção de imunizantes nacionais, também sem dizer de onde viria o dinheiro.

Jorge Kalil, diretor do laboratório de imunologia do Instituto do Coração, ligado à USP, conta que já recebeu promessa de apoio do governo federal, caso avance até a fase 3 de ensaios clínicos, após provar segurança e capacidade de resposta imune.

— Semana passada falei com o presidente, que se mostrou bastante interessado — diz Kalil, que criou uma vacina cujo antígeno (o elemento que instiga o sistema imune a identificar e combater o vírus) é uma proteína sintética. — O presidente disse que iria fazer todo o esforço para conseguir recursos, caso a gente consiga avançar nas etapas clínicas.

Para chegar só à “prova de conceito” (a demonstração de que a fórmula consegue proteger um organismo) uma vacina precisa de R$ 1,5 milhão. Depois disso, não menos que R$ 10 milhões até o ensaio clínico. Os testes em humanos são a etapa mais cara. A título de comparação, a vacina da Moderna recebeu do governo americano US$ 1 bilhão, sem garantia de retorno.

Dominar todo o ciclo de desenvolvimento da vacina contra a Covid-19 é fundamental para o Brasil mesmo que os imunizantes nacionais não sejam usados para deter o pico da pandemia nesse momento. Cientistas estão convencidos que a doença deve persistir e, no caso de surtos futuros, elas serão fundamentais e nos livrarão da dependência de importação.

— Desenvolver um produto nacional pode parecer caro, mas é estratégico, nos dá segurança e coloca o país num mercado bilionário — diz Célio Lopes, do Laboratório de Vacinas Gênicas da USP de Ribeirão Preto, parceiro da Farmacore, incubada na universidade.

Cientistas também buscam parcerias com empresas privadas nacionais. Alguns já fecharam acordos. Porém, por uma questão de sigilo dos contratos, não podem revelar quem são os seus parceiros.

A vacina do grupo de Lopes, que usa como antígeno um fragmento da proteína S do vírus cuidadosamente escolhido, obteve bons resultados iniciais. Agora, ele estima que serão necessários R$ 30 milhões para as fases 1 e 2 em seres humanos. Para a fase 3, mais R$ 300 milhões — justamente a cifra citada por Bolsonaro.

— O modelo de produção de vacina no Brasil é de licenciamento — diz Luiz Carlos Ferreira, do Instituto de Ciências Biológicas da USP. — Se desenvolve tudo lá fora e, quando a coisa está quase pronta, vem o IFA, que na verdade é a vacina. Ele chega aqui, é colocado nas ampolas, que recebem um rótulo, e ele passa a ser a vacina “brasileira”.

Ferreira estava desenvolvendo no início da pandemia uma vacina de coronavírus junto com o Butantan, que desistiu do projeto para firmar parceria com a chinesa Sinovac. Agora, o cientista trabalha no desenvolvimento de vacinas para Covid-19 feitas de material genético (DNA e RNA).

Testes da fase 1 em maio

O grupo de pesquisa que relata estar mais avançado com sua vacina é o da Farmacore: em maio, espera iniciar as fases 1 e 2 do ensaio clínico, num grupo limitado de pessoas.

O único projeto não paulista no pelotão de frente da busca pela vacina brasileira é o da UFMG. Líder do trabalho, Ricardo Gazzinelli busca fazer uma vacina com base no vírus influenza geneticamente modificado para não se replicar e alterado para expressar o gene da proteína S, que o coronavírus usa para invadir células humanas. A ideia é criar uma vacina “bivalente” para proteger contra gripe e Covid-19.

— Os testes da fase pré-clínica revelaram que a vacina induz não apenas a produção de anticorpos mas uma resposta de células T extremamente forte — diz Gazzinelli. — São essas células de defesa que bloqueiam a evolução da doença.

Outra meta é criar produtos fáceis de conservar e aplicar. Gazzinelli e Kalil, por exemplo, buscam uma fórmula para aplicação nasal, dispensando injeções. Mas ainda falta trabalho e, especialmente dinheiro, para tudo isso se tornar realidade.