Vacina da Pfizer pode proteger paciente contra a Covid-19 por até um ano

Ana Paula Blower, Constança Tatsch e Rafael Garcia
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Foto: DADO RUVIC/Reuters
Foto: DADO RUVIC/Reuters

A Pfizer anunciou nesta segunda-feira, 9 de novembro, que os resultados preliminares dos testes clínicos de sua vacina contra a Covid-19 indicam mais de 90% de eficácia na proteção contra o vírus. O imunizante é desenvolvido pela farmacêutica americana em parceria com a empresa alemã BioNTech.

A vacina — a primeira a anunciar que é eficaz, embora ainda sem revisão dos resultados por pesquisadores independentes — está sendo testada no Brasil, além de outros países, mas não há acordo para aquisição de doses, como os governos federal e de São Paulo já têm para as vacinas experimentais da Universidade de Oxford e da chinesa Sinovac — esta segunda, a Coronavac, teve seus testes interrompidos ontem no Brasil pela Anvisa após a ocorrência de um “evento adverso grave”.

Até esta segunda-feira, 9 de novembro, o Brasil já havia perdido 162.638 vidas para o novo coronavírus. Desde o início da pandemia, 5.675.766 casos foram confirmados no país. No Estado do Rio, já são 20.905 mortos e 316.575 diagnósticos positivos desde março.

Conversa com o governo

No mesmo dia em que a Pfizer divulgou detalhes sobre o estudo, a divisão da empresa no Brasil afirmou que está disposta a retomar o diálogo com o governo Bolsonaro para chegar a um acordo de compra.

O grau máximo de eficácia contra o vírus foi alcançado sete dias depois da segunda dose da vacina e 28 dias após a primeira, anunciou a empresa. “Hoje é um grande dia para a ciência”, disse, ontem, Albert Bourla, CEO e presidente da Pfizer. O diretor da BioNTech, Ugur Sahin, disse esperar que a imunidade gerada pela vacina dure pelo menos um ano.

Após o anúncio da empresa americana, o Ministério da Saúde da Rússia veio a público afirmar que a vacina Sputnik V também é 90% eficaz contra a Covid-19. Os russos, porém, não exibiram dados específicos nem estudo publicado.

Nos EUA, a Pfizer já entrou com pedido de autorização para uso emergencial da vacina em pessoas de 16 a 85 anos. A farmacêutica tem contrato de US$ 1,95 bilhão com o governo americano para entregar 100 milhões de doses de vacinas a partir deste ano. Também fechou acordos com União Europeia, Reino Unido, Canadá e Japão.

No Brasil, por enquanto, a empresa deve continuar aplicando a vacina apenas no contexto do teste clínico, que tem braços na Bahia e em São Paulo.

O infectologista Edson Moreira, do Centro de Pesquisa Clínica da Obra Social Irmã Dulce, em Salvador, coordenou o ensaio clínico no Brasil e diz crer que a vacina vá ser disponibilizada no país em algum momento:

— Está sendo testada aqui para ser utilizada aqui.

Vacina precisa ficar a 70 graus negativos

Caso a vacina ganhe o registro na Anvisa, mas não seja incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS), ela pode vir a ser disponibilizada apenas na rede privada. As negociações para isso devem ser retomadas.

“A Pfizer continua em contato com o governo e ofereceu a possibilidade de encaminhar uma proposta atualizada de fornecimento de sua potencial vacina, sujeita à aprovação regulatória, que permitiria vacinar milhões de brasileiros”, disse a divisão brasileira da empresa, em nota à imprensa. “Aguardamos um retorno do Ministério da Saúde para continuar com as tratativas.”

O comunicado da empresa encontrou eco em declaração do vice-presidente Hamilton Mourão, para quem o Brasil pode vir, sim, a repensar um acordo antecipado de aquisição de lotes do imunizante. Ele ressaltou porém, que não está participando diretamente dessa decisão.

— Acredito que essa vacina da Pfizer, uma vez sendo comprovada essa eficiência dela em 90% dos casos, ela terá uma boa prioridade e poderá ser objeto de compra por parte do nosso governo — afirmou.

Cientistas ouvidos pelo EXTRA afirmam que a tecnologia é sofisticada e segura, mas possui algumas limitações em termos de logística.

— As nossas fábricas ainda não sabem produzir esse tipo de vacina. Na verdade, muito poucas unidades no mundo dominam o processo, nunca foi feito, não há infraestrutura disponível — afirma Ricardo Gazzinelli, professor da UFMG e presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia.

O imunizante da Pfizer precisa ser mantido a 70°C negativos: requer freezers mais potentes do que aqueles que os postos de saúde costumam ter.

Cristiano Zerbini, médico do Centro Paulista de Investigação Clínica, que coordena o ensaio clínico da Pfizer em SP, porém, afirma que a eficácia de 90% foi até maior do que a que tinha sido projetada para ele (de 70%) e o colocam a um passo de vantagem no cenário atual de pesquisa clínica para Covid-19.

— Uma vacina dessas pode acabar com a pandemia.