Vacina de Oxford contra coronavírus: aposta do governo Bolsonaro contra covid-19 tem resultados animadores para idosos

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Homem a ponto de ser vacinado
A Universidade de Oxford possui uma das mais promissoras vacinas contra covid-19, mas não é a única

A vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a farmacêutica AstraZeneca mostrou ter levado a uma resposta imunológica robusta contra a covid-19 em pessoas com mais de 60 anos. O resultado amplia a esperança de que o imunizante poderá proteger as faixas etárias mais vulneráveis ao coronavírus.

Pesquisadores afirmam, em artigo na revista científica Lancet, que a fase 2 dos testes com 560 adultos saudáveis são "animadoras".

Atualmente, a chamada "vacina de Oxford" está na fase 3 dos testes, etapa em que são analisadas a eficácia e a segurança em dezenas de milhares de voluntários, boa parte deles no Brasil.

Estima-se que devem sair nas próximas semanas os resultados preliminares sobre quão eficaz é esse imunizante.

Essa vacina Oxford/AstraZeneca é a principal aposta do Brasil entre as várias candidatas em desenvolvimento.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) negociou um acordo com a AstraZeneca para a compra de lotes e transferência de tecnologia, o que permitiria a produção da vacina no Brasil no início de 2021.

O acordo prevê a entrega de 15 milhões de doses até dezembro de 2020 e outros 15 milhões até janeiro de 2021. Esse montante seria suficiente para imunizar 15% da população brasileira. Em seguida, seriam produzidas mais de 70 milhões de doses, com custo unitário em torno de R$ 12.

Mas isso depende ainda dos resultados da fase 3 e de uma análise da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) até poder ser distribuída no Brasil.

Outra aposta do país é a CoronaVac, desenvolvida pela farmacêutica chinesa Sinovac. Um parceria com o Instituto Butantan prevê a produção de 46 milhões de doses ainda neste ano, mas os estudos estão na mesma etapa da Oxford/AstraZeneca.

Essas duas grandes apostas de imunização do Brasil estão relativamente atrás de outras três candidatas: a Pfizer/BioNTech, a Moderna e a Sputnik (Gamaleya).

À frente está a candidata da parceria Pfizer/BioNTech, que já apresentou resultados consolidados da fase 3 dos testes, apontando uma eficácia de 94% contra o coronavírus, inclusive entre idosos.

Ou seja, dos 170 casos de covid-19 registrados entre os voluntários, 162 tinham recebido um placebo (uma substância inativa) e 8 tinham recebido da vacina de fato. As farmacêuticas devem pedir ainda nesta semana autorização oficial para sua distribuição.

A americana Moderna e a russa Sputnik — que negocia a venda de 50 milhões de doses para Estados brasileiros como o Paraná — também apresentaram resultados promissores de eficácia acima de 90%, mas ainda são dados preliminares da fase 3. Somente com resultados consolidados é que poderão pedir aval para distribuição.

Não há até nenhum acordo formal entre o governo federal ou algum Estado com a Pfizer/BioNTech, Moderna ou Sputnik. Mas a participação do Brasil em um consórcio internacional deve garantir acesso ao imunizante da Moderna.

The British Broadcasting Corporation

O que os estudos da "vacina de Oxford" apontam?

O desafio de desenvolver uma vacina contra a covid-19 é fazer com que o corpo reaja contra o vírus, independentemente da idade da pessoa.

Em geral, o sistema imunológico mais fraco dos idosos implica que as vacinas tendem a não funcionar tão bem como nos jovens.

Os resultados desses testes da Universidade de Oxford, revisados ​​por outros cientistas na Lancet, sugerem que isso pode não ser um problema com esse imunizante.

Eles mostram que os adultos mais velhos, com idades entre 56 e 69 anos e com mais de 70 anos, tiveram uma resposta imunológica semelhante aos adultos mais jovens com idades entre 18 e 55 anos.

Maheshi Ramasamy, pesquisador do Oxford Vaccine Group, disse: "Ficamos satisfeitos em ver que a nossa vacina não foi apenas bem tolerada em adultos mais velhos mas também estimulou respostas imunológicas semelhantes às observadas em voluntários mais jovens. O próximo passo será ver se isso se traduz em proteção contra a própria doença."

Duas semanas após a segunda dose, mais de 99% dos participantes apresentaram respostas de anticorpos neutralizantes. Isso incluía pessoas de todas as idades.

A resposta das células T — outra medida de quão bem o sistema imunológico responde — atingiu o pico duas semanas após a primeira dose da vacina, independentemente da idade.

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"As respostas robustas de anticorpos e células-T (que fazem parte da defesa do corpo) vistas em pessoas mais velhas em nosso estudo são animadoras", disse Ramasamy.

"As populações com maior risco de doença grave de covid-19 incluem pessoas com problemas de saúde pré-existentes (comorbidades) e adultos mais velhos. Esperamos que isso signifique que nossa vacina ajude a proteger algumas das pessoas mais vulneráveis ​​da sociedade, mas mais estudos são necessários antes que possamos ter certeza."

Os adultos mais velhos também eram menos propensos a sentir efeitos colaterais da vacina, que geralmente eram leves, como dor no braço.

O estudo publicado na Lancet tampouco indicou problemas sérios de segurança relacionados à vacina, cujo nome técnico é ChAdOx1 nCov-2019.

Os voluntários do estudo foram divididos em grupos. Parte recebeu uma ou duas doses da vacina e outra parte recebeu um placebo.

A reação dos sistemas imunológicos foi avaliada no dia em que receberam a injeção, e depois uma, duas e quatro semanas após a aplicação das duas doses.

A "vacina de Oxford" é feita a partir de uma versão enfraquecida de um vírus do resfriado comum (conhecido como adenovírus) de chimpanzés que foi modificado para não se desenvolver em humanos.

Os trabalhos com a vacina começaram em janeiro e ela foi desenvolvida em menos de três meses, iniciando os testes em humanos — os primeiros na Europa — em abril, em Oxford.

Os testes de fase 3 da vacina, que avaliam sua eficácia na proteção das pessoas contra a covid-19, começaram no final de agosto e ainda estão em andamento. Dezenas de milhares de voluntários estão no Brasil.

Quando os dados dessa etapa são enviados aos reguladores, examinados e aprovados, a vacina pode receber luz verde para ser usada em pessoas ao redor do mundo. Mas cada país tem seus próprios critérios para aprovação.

Vacina
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Expectativas sobre reuniões familiares no Natal

As notícias animadoras sobre vacinas surge em meio a um debate no Reino Unido sobre se as pessoas poderão ver suas famílias durante o período de Natal.

Andrew Hayward, diretor do Instituto de Epidemiologia e Saúde da University College London e membro do Grupo de Aconselhamento Científico para Emergências do governo, disse à BBC que reuniões familiares no Natal representariam "riscos significativos".

"Estamos prestes a ser capazes de proteger esses idosos, que amamos, por meio da vacinação." Segundo ele, seria "trágico jogar fora essa oportunidade tentando voltar à normalidade durante as férias de fim de ano."

Para Hayward, "minha opinião pessoal é que estamos colocando muita ênfase em ter um Natal quase normal".

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