Vacinação: pessoas com deficiência devem ser prioridade?

Gustavo Torniero
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Dose de vacina de Oxford sendo preparada por enfermeira
Dose de vacina sendo preparada em São Paulo (AP Photo/Andre Penner)

Imagine que você não tem acesso pleno à informação sobre como o coronavírus é transmitido e como se prevenir de forma adequada por falta de acessibilidade para pessoas surdas ou com deficiência visual. Ou que você precisa de ajuda integral de outras pessoas para executar suas tarefas diárias, impedindo o distanciamento social. É por esses e vários motivos que essa parcela da população precisa ser imediatamente imunizada.

Já enfrentamos cotidianamente dificuldades no acesso à saúde, educação e emprego. Com a pandemia, essas desigualdades ficaram ainda mais escancaradas. Em março de 2020, ainda no início da crise sanitária, a ONU (Organização das Nações Unidas) lançou um apelo mundial para que os países incluam pessoas com deficiência nos protocolos de saúde contra o coronavírus.

Elas possuem mais propensão a viver na pobreza e a sofrer taxas mais altas de violência, negligência e abuso. E ainda destaco outra informação importante: muitas instituições que ofertam serviços de apoio para pessoas com deficiência tiveram que reduzir ou até paralisar suas atividades, seja por falta de recursos ou em respeito às medidas sanitárias.

O Estado, com E maiúsculo - que inclui governo federal, estados e municípios - precisa dar uma resposta urgente para esse grupo, que inclui milhões de pessoas só no Brasil. Cada deficiência possui suas particularidades e desafios enormes nessa emergência global de saúde pública e merece o devido respeito.

O governo federal, por exemplo, incluiu as pessoas com deficiência entre os grupos a serem vacinados, mas não detalhou o calendário para que a imunização começasse. A nível estadual e municipal existem algumas boas iniciativas, graças à mobilização de organizações e entidades que defendem os direitos das pessoas com deficiência no país.

Para ficar em dois exemplos: em Campo Grande (MS), milhares de pessoas com deficiência já começaram a ser vacinadas. Na cidade do Rio de Janeiro, o secretário municipal de saúde, Daniel Soranz, anunciou que todas as pessoas com deficiência permanente poderão se vacinar contra Covid-19 a partir do dia 26 de abril.

Para acelerar a conscientização sobre a vacinação de pessoas com deficiência contra covid-19, surgiu o Movimento PCD - Imunização já, com o lema “Eu Mereço uma Dose de Respeito”. A iniciativa já está presente em 17 estados e conta com o apoio de organizações nacionais de pessoas com deficiência.

Sim: vivemos em uma escassez de doses de imunizantes no país. É por este motivo que o momento exige coordenação nacional a nível federal, estadual e municipal, inclusive para definir os critérios de imunização para cada grupo prioritário. Mas é dever do poder público dar uma resposta transparente, com um cronograma claro para a vacinar essa parcela da população.

O que não podemos é ficar de mãos atadas. O que não podemos é excluir milhões de pessoas com deficiência. O que não podemos é negligenciar uma parcela da população com altos níveis de vulnerabilidade econômica, social e sanitária. Os dados e fatos mostram a urgência desse tema. Por isso eu defendo a vacinação já para pessoas com deficiência!

Descrição da imagem: a foto está focada em duas mãos de uma mulher, provavelmente uma enfermeira, que segura com sua mão direita uma seringa para vacinar cuja agulha está colocada em um frasco de soro da vacina da Astra Zeneca, produzida pela Fiocruz, que está na mão esquerda da enfermeira. Ao fundo, desfocado, há duas pessoas sentadas, usando máscaras azuis.