Vacinar crianças de 5 a 11 anos antes da volta às aulas é improvável, dizem especialistas

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SÃO PAULO — O Ministério da Saúde deve emitir uma posição favorável à vacinação de crianças de 5 a 11 anos de idade contra a Covid-19 no dia 5 de janeiro, quando acaba o prazo da consulta pública aberta para tratar da questão. Entretanto, para especialistas ouvidos pelo GLOBO, é improvável conseguir imunizar todos os meninos e meninas dessa faixa etária, mesmo que com apenas uma dose, até o início de fevereiro, quando começa o ano letivo na maioria dos lugares.

A conta é simples: supondo que, no melhor dos cenários, a vacinação comece de fato no dia 5 de janeiro, seria necessário aplicar cerca de 1 milhão de doses por dia para imunizar parcialmente os 20 milhões de brasileiros com idade entre 5 e 11 anos. O Brasil tem perfeita capacidade de alcançar essa meta. Mas isso é praticamente impossível de acontecer por alguns motivos.

Sem cronograma ainda

Primeiro, a administração de pelo menos 1 milhão de doses diárias é a meta do Ministério da Saúde desde o início da vacinação. Mas isso só passou a ocorrer de forma consistente a partir de junho, quase seis meses após o início da imunização contra a Covid-19. Antes disso, o principal empecilho para aumentar o ritmo da vacinação era a falta de vacinas. Não se sabe se o mesmo irá ocorrer com a imunização infantil. Procurados, nem a Pfizer nem o Ministério da Saúde se pronunciaram sobre o cronograma de entregas e a quantidade de doses. A farmacêutica disse apenas que “está atuando junto ao governo para definir as etapas do fornecimento das vacinas contra a Covid-19 para imunização da faixa etária de 5 a 11 anos, com estimativa de entregas a partir de janeiro de 2022”.

— Informações extraoficiais indicam que serão 15 milhões de doses pediátricas no primeiro trimestre. Precisamos de 40 milhões para a imunização total das 20 milhões de crianças de 5 a 11 anos — diz o pediatra e infectologista Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e membro da Câmara Técnica Assessora de Imunização Covid-19 (Ctai), que orienta o Ministério da Saúde sobre temáticas relativas à vacinação.

Se essa estimativa se mantiver, até março seria possível imunizar parcialmente 15 milhões de crianças — o equivalente a 75% desse grupo — ou totalmente 7,5 milhões de crianças, que equivale a 37,5%. Segundo Kfouri, a decisão sobre qual estratégia seguir ficará a cargo da câmara técnica da pasta. Mas, para isso, é preciso haver um cronograma de entrega de doses.

— Precisamos saber do cronograma de entrega para montar o calendário e a melhor estratégia de vacinação. As possibilidades incluem vacinar o maior número de pessoas com a primeira dose, mesmo que isso signifique aumentar o intervalo para a segunda dose ou priorizar a imunização de crianças de risco — explica o pediatra.

Vale lembrar ainda que o Brasil não completou a vacinação de adultos e adolescentes a partir de 12 anos de idade. Dados do consórcio de veículos de imprensa mostram que 75,5% da população brasileira estão imunizados com ao menos uma dose, mas apenas 67,1% completaram o esquema de vacinação. Isso significa que pelo menos 17,9 milhões de brasileiros ainda precisam receber a segunda dose. Se considerarmos o reforço, esse número sobe para 135,2 milhões de pessoas. Ou seja, não é possível mobilizar todo o sistema de saúde apenas para a vacinação infantil.

Prescrição atrasa

Outro ponto importante é a possibilidade da exigência de prescrição médica para a vacinação de crianças e adolescentes. Em documento publicado na última sexta-feira (24), o Ministério da Saúde afirmou que a imunização de crianças deverá ser realizada com a autorização dos pais ou responsáveis e com a apresentação do pedido médico. Muitos estados já disseram que não irão exigir a prescrição. Mas ainda não se sabe se todos irão se opor ao governo federal.

— O termo de consentimento é normal, mas se for exigido o pedido médico, haverá um atraso muito grande na vacinação — alerta o médico geneticista Salmo Raskin, presidente do Departamento Científico de Genética da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Outros empecilhos relevantes para o rápido avanço da imunização de crianças no Brasil incluem o fato de o próprio presidente do país ser publicamente contrário à vacinação dessa faixa etária.

— É claro que seria possível vacinar as crianças antes do início do ano letivo. Depende apenas de boa vontade. Que é exatamente o que o Ministério da Saúde não tem demonstrado em relação à vacinação das crianças. O ministro da Saúde, em vez de estar preocupado em fazer o trabalho dele, que é vacinar as crianças, está preocupado em agradar o presidente nas suas teorias negacionistas — critica o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas.

Em diversas ocasiões, Bolsonaro se posicionou contrário à vacinação de crianças. “A questão da vacina para criança é muito incipiente ainda. Temos muito… Nós, não. O mundo ainda tem muita dúvida”, disse Bolsonaro, que afirmou também que não irá vacinar a filha, de 11 anos.

Médicos temem que essa atitude contribua para a hesitação de alguns pais na vacinação dos filhos.

— Vamos enfrentar pela primeira vez uma porcentagem de hesitação à vacinação. Não sabemos o grau, mas vai haver, até mesmo entre os pais que queiram vacinar seus filhos. É provável que alguns decidam esperar algum tempo após a vacinação começar, antes de irem ao posto — diz Raskin.

O infectologista Leonardo Weissmann, médico do Instituto Emílio Ribas e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), lembra que, embora aconteça com menos frequência, crianças podem adoecer gravemente pela Covid-19 e morrer.

— O risco do atraso é termos crianças vulneráveis ao vírus e suas variantes —conclui.

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