Vacinar-se antes por ser político, um debate nos EUA

Camille CAMDESSUS
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A líder dos democratas no Congresso, Nancy Pelosi, se vacuna contra a covid-19 em Washington em 18 de dezembro de 2020

Na frente das câmeras ou ao vivo nas redes sociais. Políticos dos EUA foram vacinados publicamente contra a covid-19 para incentivar a população. Mas é justificado que recebam a vacina antes dos demais cidadãos?

No início de dezembro, o Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), principal agência federal de saúde pública dos Estados Unidos, recomendou que fosse dada prioridade ao recebimento da vacina tanto para profissionais de saúde quanto aos moradores de asilos, ou seja, cerca de 24 milhões de pessoas. Mas quatro dias após o início da campanha de imunização nos EUA, com a primeira injeção da Pfizer/BioNTech, o médico do Congresso convidou todos os legisladores a se vacinarem, para garantir a "continuidade do governo".

Tanto a líder democrata no Congresso, Nancy Pelosi, 80 anos, quanto o líder republicano no Senado, Mitch McConnell, 78, imediatamente arregaçaram as mangas para receber a vacina e pedir aos compatriotas que fizessem o mesmo.

Para dissipar a desconfiança de muitos americanos, vários canais de televisão transmitiram ao vivo a vacinação do vice-presidente em fim de mandato, Mike Pence, e do presidente eleito, Joe Biden. "Não há nada com que se preocupar", disse Biden, 78 anos, que será o presidente americano mais velho da História quando assumir o cargo, em 20 de janeiro.

Os governadores do Texas e Kentucky, dois estados fortemente atingidos pela pandemia, também receberão a vacina, na terça-feira, e a futura vice-presidente, Kamala Harris, será vacinada na próxima semana.

- 'Má estratégia' -

Mas a vacinação de políticos mais jovens e, portanto, com menor probabilidade de desenvolver formas graves da covid-19, gerou protestos. Foi o caso de Alexandria Ocasio-Cortez, uma estrela de esquerda americana de 31 anos e membro da Câmara dos Deputados, cuja vacinação não passou despercebida, pois foi meticulosamente registrada em sua conta no Instagram. "Eu nunca pediria que fizessem algo se eu mesma não estivesse preparada para fazê-lo", disse.

Quais são os efeitos colaterais mais comuns? Você deve ser vacinado se já tiver sido infectado pela covid-19? A democrata aproveitou para responder a perguntas de internautas. Esta decisão custou-lhe uma enxurrada de críticas, especialmente em sua própria área.

"Não somos mais importantes do que trabalhadores da linha de frente, professores etc., que se sacrificam todos os dias", denunciou no Twitter Ilhan Omar, outro jovem deputado democrata próximo de seu parceiro na hierarquia.

Tulsi Gabbard, 39, representante do Havaí e ex-candidata nas primárias presidenciais democratas, acredita que priorizar políticos para serem vacinados é uma " má estratégia de saúde pública". "Eu tinha planejado ser vacinada, mas, em solidariedade aos nossos mais velhos, não farei isso antes de ter a possibilidade", explicou.

Do lado republicano, onde muitas vozes minimizaram a gravidade do vírus, políticos agora recebem críticas por passarem na frente na fila para receber a vacina. É o caso do representante de Iowa, Joni Ernst, acusado de espalhar teorias conspiratórias sobre o vírus.

Outros, como os senadores Marco Rubio e Lindsey Graham, pagam o preço por sua proximidade com Donald Trump, que criticou o uso de máscaras e realizou comícios durante a campanha presidencial, em que as medidas de proteção não foram respeitadas. "O Congresso literalmente não fez nada nos últimos oito meses. Agora, eles estão pulando para sua vez", criticou o governador de New Hampshire, Chris Sununu, no Twitter. "É ultrajante. E insultante."

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