Vacinas vencidas: metade dos lotes sob suspeita foi importada da Índia e o restante foi enviado pela OMS, segundo a Fiocruz

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Foto: Rodrigo Paiva/Getty Images
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Até o dia 26 de junho, o sistema de informações do Ministério da Saúde registra o que seriam 28.733 doses de vacinas da AstraZeneca contra a Covid-19 aplicadas no Brasil fora da data de validade. O problema, divulgado nesta sexta-feira (2) pela Folha de S.Paulo, foi investigado pelo EXTRA, que buscou no DataSUS, o banco de dados do Sistema Único de Saúde, inconsistências nos registros de uso de oito lotes de imunizantes já vencidos.

Os lotes das doses que teriam sido aplicadas fora da validade são 4120Z001 (válido até 29 de março de 2021), 4120Z004 (até 13 de abril de 2021), 4120Z005 (até 14 de abril de 2021), CTMAV501 (até 30 de abril de 2021), CTMAV505 (até 31 de maio de 2021), CTMAV506 (até 31 de maio de 2021), CTMAV520 (até 31 de maio de 2021) e 4120Z025 (até 4 de junho de 2021). Fabricante da vacina da AstraZeneca no Brasil, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) publicou nota em seu site afirmando que nenhum dos lotes suspeitos foi produzido na instituição. O Ministério da Saúde já distribuiu aos estados doses da AstraZeneca importadas prontas da Índia e outras enviadas pelo consórcio Covax Facility, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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“Em relação à informação de que doses da vacina AstraZeneca teriam sido aplicadas fora da validade, a Fiocruz esclarece que os referidos lotes não foram produzidos pela instituição. Parte dos lotes (com numeração inicial 4120Z) é referente aos quantitativos importados prontos do Instituto Serum, da Índia, chamada de Covishield, e entregues pela Fiocruz ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde (MS) em janeiro e fevereiro deste ano. Os demais lotes apontados foram fornecidos pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS). Todas as doses das vacinas importadas da Índia (Covishield) foram entregues pela Fiocruz em janeiro e fevereiro dentro do prazo de validade e em concordância com o MS, de modo a viabilizar a antecipação da implementação do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, diante da situação de pandemia. A Fiocruz está apoiando o PNI na busca de informações junto ao fabricante, na Índia, para subsidiar as orientações a serem dadas pelo Programa àqueles que tiverem tomado a vacina vencida”, dizia a nota da Fiocruz.

Prefeituras de alguns dos municípios onde o problema teria ocorrido afirmam que houve um registro incorreto de dados, e não o uso de imunizante vencido. Se confirmados erros em todas essas instâncias, significa que 0,03% das aplicações de vacinas ocorreu com o produto com a validade vencida.

A base de dados do Plano Nacional de Imunizações (PNI) apresenta muitos registros com erros de preenchimento. Das mais 28 mil aplicações incorretas apontadas no sistema, por exemplo, cerca de 4 mil contêm números de lotes da AstraZeneca com a rubrica da CoronaVac. Há registro de 20 pessoas vacinadas antes de 2019, quando não se sabia da Covid-19 e, portanto, não havia imunizantes contra a doença.

Segundo as informações que estão no DataSUS, as doses expiradas teriam sido aplicadas em 2.905 postos de 1.655 cidades. A julgar pela porcentagem pequena do problema e por sua natureza fragmentada, os casos de uso indevido não parecem ter ocorrido por distribuição de vacinas vencidas e sim por elas terem expirado na ponta da cadeia de distribuição, ou seja, nos municípios, onde ocorre a aplicação. Os estados com mais registros de aplicação fora da validade são Paraná (4.150), São Paulo, (3.868), Pará (3.515), Minas Gerais (2.740) e Rio de Janeiro (2.718).

O governo paulista informou, em nota, que constatou o uso de um número até maior de vacinas vencidas em seu próprio banco de dados. “A Secretaria de Estado identificou 4.772 registros em 315 municípios que sugerem aplicações dos imunizantes da AstraZeneca após o vencimento. A pasta está informando as prefeituras, que são as responsáveis pela aplicação das vacinas, para realizar busca ativa desta população”, diz o texto.

Casos na Baixada Fluminense

São Paulo é a cidade com o maior número de registros com problemas, mas alguns municípios menores concentram uma parcela proporcionalmente grande, como Maringá (PR), Santos (SP) e Nilópolis, na Baixada Fluminense.

A Prefeitura de Maringá nega que tenha aplicado vacinas vencidas e diz que há erros nos registros. “Ocorreram problemas que já foram detectados e notificados ao Ministério da Saúde no dia 11 de junho para correção”, informou.

O secretário de Saúde da cidade do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, afirmou que a pasta iniciou um processo de verificação para identificar se alguma dose vencida foi aplicada no município. “Caso isso tenha acontecido, a unidade entrará em contato com os usuários para realizar a revacinação”, escreveu o secretário no Twitter.

O Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Conselho Nacional dos Secretários Municipais de Saúde (Conasems) publicaram comunicado em que prometem apurar os números: “Os casos sobre aplicação de doses contra a Covid-19 fora do prazo de validade serão investigados; não está descartado erro do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações, que desde o início da Campanha de Vacinação apresenta instabilidade no registro dos dados”.

O Ministério da Saúde também se pronunciou sobre o assunto por nota. “Nenhuma dose de vacina é entregue aos estados e ao Distrito Federal vencida. Cabe aos gestores locais do SUS o armazenamento correto, acompanhamento da validade dos frascos e aplicação das doses, seguindo à risca as orientações do ministério”, informou a pasta no comunicado.

O que fazer

A orientação do Ministério da Saúde para quem acredita ter tomado dose fora da validade é procurar o posto de saúde onde recebeu o atendimento. Especialistas afirmam que não há risco à saúde de quem tomou dose vencida, mas a imunização não acontecerá, por isso, é preciso fazer uma nova aplicação.

O número do lote, a marca e a validade do imunizante devem constar do comprovante de vacinação de cada pessoa, o que torna fácil identificar um uso indevido. Quando o documento tem apenas o número do lote, é preciso consultar a data de validade dele em informações do Sage (Sistema de Apoio à Gestão Estratégica). Alguns estados e municípios também oferecem bases de consulta para os usuários.

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