"Vai ser um Dia das Mães horrível", diz médica na linha de frente contra o coronavírus

Giorgia Cavicchioli
·8 minuto de leitura
Dra. Natally paramentada para mais um dia de trabalho. Foto: Arquivo Pessoal
Dra. Natally paramentada para mais um dia de trabalho. Foto: Arquivo Pessoal

Formada desde 2008, a médica Natally de Oliveira Morais teve que se separar das filhas para poder trabalhar na linha de frente do combate ao novo coronavírus no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. Separada e com a guarda unilateral de Sofia, de 6 anos, e Valentina, de 4, a profissional precisou deixar as filhas com a mãe, que mora em outro Estado.

Com saudades e querendo passar o Dia das Mães com as mulheres de sua vida, Natally optou por continuar trabalhando e ajudar aqueles que mais estão precisando neste momento. "Me sinto dividida, mas essa é minha missão e o exemplo que quero deixar pras minhas filhas", afirma.

Mesmo querendo passar esse exemplo para suas filhas, a rotina dentro do hospital em meio a uma pandemia não é nada fácil e causa angústia para a profissional. "O que mais assusta é a evolução dos pacientes, que rapidamente ficam muito mal", diz.

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Yahoo: Me conte um pouco da sua trajetória profissional?

Natally de Oliveira Morais: Me formei em 2008 em Campo Grande (Mato Grosso do Sul). Praticamente vivi lá a vida toda, minha família é de lá. Comecei a trabalhar em pronto socorro logo que me formei e nunca parei, isso sempre me fez muito bem porque sinto que posso ajudar as pessoas, fazer meu trabalho e trazer um pouco de conforto às pessoas em um momento de emergência. Atendo em pronto socorro desde 2009, e atendo no Hospital 9 de Julho desde 2012 ou 2013.

Yahoo: E sua vida pessoal? Quantos filhos tem?

Natally: Tenho duas filhas, tive elas já trabalhando no 9 de Julho, a mais velha tem 6 anos e a mais nova vai completar 5 anos em agosto. Elas têm 1 ano e 5 meses de diferença. Trabalhando em emergência eu completei a segunda formação, em dermatologia. Me especializei pelo Hospital Ipiranga e depois fiz uma complementação em oncologia cutânea na Faculdade de Medicina do Hospital das Clínicas. Não estou mais casada, não moramos mais juntos desde novembro, antes dessa turbulência. Eu e as meninas estávamos nos adaptando a morar sozinhas e já estávamos vivendo um momento difícil, com o processo de separação, mas meu trabalho sempre foi meu grande equilíbrio, nunca consegui abrir mão, e mesmo agora é o que me dá forças além delas. É a segunda coisa mais importante que tenho na vida.

Yahoo: Como foi quando começou a pandemia? Como você lidou com isso?

Natally: Quando a Covid-19 começou, atendi no pronto socorro alguns dos primeiros casos que tivemos no hospital, e logo em seguida começamos a nos preparar para questão do isolamento e suspensão das aulas. Minha mãe estava aqui em São Paulo e resolvi que não daria para as minhas filhas ficarem aqui comigo, porque eu suspendi o trabalho das minhas funcionárias, elas não teriam escola e elas também não ficam com o pai, eu tenho a guarda unilateral delas. Então eu mandei elas para Campo Grande depois de consultar meu advogado. Tenho ido vê-las, mas cada vez que vou, faço um teste de Covid-19, e tem sido bastante difícil esse afastamento. Elas têm se fortalecido muito, mas tem sido muito doloroso principalmente para mim.

Yahoo: Como está sendo o trabalho na linha de frente?

Natally: O Hospital tem uma estrutura muito boa. A gente tem paramentos, não temos sofrido com contenção de material. Mas, no grupo, também temos médicos mais velhos, então nós que somos mais novos acabamos atendendo mais os pacientes com Covid-19, enquanto os mais velhos ficam de frente com as outras doenças que nós continuamos tendo dentro do hospital. Quando a gente trabalha em pronto atendimento em momentos como esses, mais do que nosso medo, a gente tem que lidar com o medo dos pacientes, das outras pessoas. Mais do que dar o suporte clínico para as pessoas, a parte mais complexa é essa questão de tentar fazer as pessoas entenderem que é muito importante ficar em casa.

Dra. Natally com as filhas Sofia e Valentina. Foto: Arquivo Pessoal
Dra. Natally com as filhas Sofia e Valentina. Foto: Arquivo Pessoal

Yahoo: Você teve medo?

Natally: No começo, eu protegi minha família, antes que minhas filhas pegassem, mas ao mesmo tempo eu pensava será que vai ser tudo isso? Eu me questionava, mas fui seguindo todos os protocolos e acompanhando a evolução. O que mais assusta é a evolução dos pacientes, que rapidamente ficam muito mal. Mesmo sendo cuidados com toda a estrutura do hospital, demanda muito tempo de internação. Então é assustador pra gente ver que tem uma limitação do que a gente pode oferecer aos pacientes. A falta de ar é um dos sinais clínicos mais angustiantes que a gente pode presenciar.

Yahoo: Como era sua rotina antes do vírus e como está agora?

Natally: Antes do vírus, eu tinha minhas filhas comigo todos os dias, tomávamos café da manhã juntas, eu levava elas para a escola e buscava todos os dias, a gente jantava, eu dava banho, conversávamos sobre o dia, eu as colocava para dormir. Além do meu trabalho, gosto muito dos eventos escolares e sempre criei outros para elas. Uma das coisas que acho mais importantes na vida é o fato de a gente socializar, então sempre gostei muito de festas em casa - festa do pijama, a fantasia, festa junina, chá da tarde, e encontros com amigos. E isso hoje não temos mais. Sinto muita falta. Temo mais por elas do que por mim mesma, porque quero muito que minhas filhas sejam grandes mulheres, boas amigas, pessoas que tenham empatia pelo outro e isso a gente consegue aprender socializando.

Yahoo: Como conciliar a vida de mãe com o trabalho na linha de frente do coronavírus?

Natally: Me emociona falar sobre isso porque é muito doloroso. Eu falo muito com elas, a gente fala por vídeo, elas têm liberdade para me ligar quando quiserem, mas eu ouço muito delas que elas estão com saudade. É muito difícil. Tenho uma coisa dentro de mim que diz que eu preciso continuar, que preciso ir trabalhar, que posso ajudar porque sou jovem, saudável e sei como fazer. E existe o outro lado porque agora eu sou a mulher da família e tenho que manter casa, escola e tudo que elas precisarem, então é uma responsabilidade enorme também financeira. Mas, ao mesmo tempo, eu também queria estar só com elas, em quarentena, dentro de casa. Falar por vídeo tem ajudado muito, não sei o que seria de mim sem isso. Ajuda a olhar pra frente e entender que é só uma fase e vai passar.

Yahoo: Elas entendem o que está acontecendo?

Natally: Elas entendem bem agora. Comecei a perceber, com o crescimento delas, que o aprendizado delas é baseado no exemplo, e meu trabalho é minha força e é isso que eu quero dar de exemplo pra elas. Eu falo pra elas sobre o vírus, fiquei um pouco receosa de explicar muito, mas explico porque não posso estar junto com elas, mostro o quanto é importante a gente ajudar e que esse foi o papel que eu escolhi. E eu falo que eu quero que elas estudem bastante para também poderem ajudar outras pessoas. Eu mando fotos para elas, então elas me viram paramentada, com máscara, e elas me perguntam todas as vezes por que eu estou com essa roupa, dizem que não é muito bonita, mas assim elas conseguem entender a seriedade do momento que a gente está vivendo e mais pra frente elas vão entender melhor todas as concessões que estão sendo feitas e entender o nosso distanciamento. Desde a separação, elas também já faziam terapia e eu pedi que a psicóloga mantivesse a terapia e agora fazem por vídeo. Isso tem sido bom. elas também resolvem parte das angústias na terapia.

Yahoo: Você fica dividida?

Natally: Eu queria não ter que trabalhar também e ficar em casa, mas, além da questão financeira, não dá pra eu deixar as pessoas na mão - os colegas de equipe que têm mais de 60 anos ou tem comorbidades. Eu me sinto preparada para atender as pessoas, feliz e grata por poder ajudar nesse momento e fazer um pouco de diferença na vida de quem passa pelo meu atendimento. Me sinto dividida, mas essa é minha missão e o exemplo que quero deixar pras minhas filhas. Quero que elas entendam que a vida é isso, o equilíbrio entre o outro e nós mesmos, o outro e nossa família. No meu Dia das Mães eu gostaria de ir até Campo Grande ficar com elas, mas não sei se vou conseguir. Se não der, talvez passar o dia todo em vídeo com elas.

Yahoo: Como se sente em passar Dia das Mães no meio da pandemia?

Natally: Horrível. Porque eu não vou estar nem com minha mãe nem com minhas filhas. Eu tenho emagrecido, não consigo comer, estou muito ansiosa. Tenho momentos de muita tristeza, vontade que isso acabe logo, mas penso nisso de focar em um dia de cada vez e que tudo vai passar.